2024 — Um Ano Sob Céus Instáveis

O Mundo

2024 avançou como um ano de fricções acumuladas, onde a história parecia mover-se por sobressaltos. Os conflitos prolongaram-se como feridas abertas: Gaza continuou a sangrar sob o peso de uma guerra sem horizonte, a Ucrânia resistiu num desgaste que já se confunde com paisagem, e o Médio Oriente viveu um perigoso jogo de ecos entre Israel, Hezbollah e o Irão. Nada disto trouxe novidade — apenas a insistência do trágico.

Na política global, o mundo oscilou entre regressos e sobressaltos: os Estados Unidos voltaram a entregar o poder a Donald Trump, a França atravessou eleições inquietas, e a Venezuela manteve o seu ciclo de contestação e permanência. Entre estas convulsões, a ciência continuou a avançar: o Japão pousou na Lua, a Neuralink inaugurou a ligação direta entre cérebro e máquina, e o planeta respondeu com fenómenos extremos, como se a própria Terra tivesse perdido a paciência.

Os Jogos Olímpicos de Paris ofereceram um breve intervalo — um daqueles raros momentos em que o mundo parece lembrar-se de que também sabe respirar em conjunto.

Portugal

Em Portugal, 2024 foi um ano de transição tensa, quase coreografada por impasses. A dissolução do Parlamento abriu caminho a eleições renhidas, e a vitória curta da Aliança Democrática trouxe Luís Montenegro ao governo. O país assistiu, entre perplexo e fatigado, ao inédito bloqueio na eleição do Presidente da Assembleia — um sintoma de que a política também tem os seus labirintos.

Nas ilhas, o ano foi igualmente agitado: os Açores renovaram a coligação de direita, enquanto a Madeira enfrentou a queda de Miguel Albuquerque após se tornar arguido, revelando que a estabilidade também pode ser apenas aparência.

Mas 2024 foi, sobretudo, o ano em que Portugal celebrou cinquenta anos de Abril — meio século de democracia, revisitado com a consciência de que a liberdade é sempre um trabalho inacabado. No SNS, as reformas avançaram com a criação das Unidades Locais de Saúde e a expansão das USF-B, numa tentativa de reorganizar um sistema que vive entre urgências e esperanças.

As Figuras que Partiram

2024 levou consigo nomes que deixaram marcas distintas, mas igualmente densas.

Lá fora

  • Roberto Cavalli, estilista italiano, cuja exuberância estética marcou décadas de moda.
  • Liam Payne, cuja morte precoce devolveu ao mundo o choque da fragilidade humana por trás da fama.

Entre nós

  • Marco Paulo, voz popular que atravessou gerações e resistiu a todas as modas.
  • Nuno Júdice, poeta e ensaísta, uma das consciências literárias mais finas do país.
  • Mísia, fadista que reinventou o género com uma teatralidade íntima e singular.

Cada um deles deixou um silêncio próprio — uns mais ruidosos, outros mais subterrâneos — mas todos acrescentaram uma dobra à memória coletiva.

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