A Última Afronta
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
do braço engessado. Lembrava-se vagamente da ambulância e do aparato na entrada
das urgências. Apalpou o volumoso penso que tinha numa das orelhas e grunhiu
uma praga.
leitos, cujos ocupantes dormiam a sono solto. Um deles ressonava ruidosamente.
estavam ao lado do leito. Era um homem de compleição forte, quase gordo, de
sessenta e um anos, mas com a cabeça coberta por uma farta cabeleira branca.
Caminhou ao longo da cama, apropriou-se da canadiana do vizinho e cutucou-o rudemente
com ela, para que parasse os roncos. Depois, apoiado no objeto roubado com o
braço são, dirigiu-se para o corredor, para responder à urgente vontade de
urinar.
corredor do hospital, quando, atrás dele, saída das sombras em passo apressado,
avançou uma mulher, aproximadamente da mesma idade. Também tinha hematomas no
rosto, a cabeça ligada e dois dedos de uma mão com talas.
presença da mulher e fez uma expressão de terror, quando ela lhe lançou o cotovelo
sob o queixo e premiu-lhe a laringe sem piedade. Entraram ambos de rompante
pelas instalações sanitárias, sem que ele conseguisse soltar um gemido.
pé, ela empurrou a porta para que não fossem vistos do exterior e começou a socá-lo
com toda a força, enquanto ele tentava proteger o rosto, sem sucesso. Lutaram
pela canadiana e quando ele soltou um grunhido, pela garganta magoada ela
principiou a dar-lhe joelhadas nos genitais, até que ele se vergou. Agarrou-o
pela gola do pijama e puxou-o com toda a força, com a cabeça contra o ferro de
apoio, ao lado da sanita e o homem caiu desacordado.
exterior, verificando se os ruídos não tinham chamado a atenção de ninguém. Em
seguida, ajoelhou-se sobre o peito do homem e tapou-lhe o rosto com a toalha,
pressionando sobre o nariz e a boca. Ao fim de uns segundos, ele começou a
debater-se, mas ela conseguiu mantê-lo imobilizado o tempo suficiente, até que
parasse de se mexer.
desalinhado e em passo rápido, para voltar à ala que lhe competia.
que movia a mulher, para uma atitude tão violenta, teremos de recuar ao dia
anterior.
mulher geniosa, ectomórfica, a rondar os sessenta anos. O seu rosto, de linhas
finas, prematuramente envelhecido, deixava as pessoas surpreendidas, com o
contraste da agilidade com que se movia. Naquela manhã, estava corada e os seus
olhos soltavam chispas, quando chegou ofegante à porta da casa de Daniel, o seu
ex-marido. Com o punho fechado, bateu fortemente por várias vezes, gritando o
nome daquele que, em tempos, partilhara a vida com ela.
numa zona cara da cidade e a ocupar uns bons metros quadrados de terreno
caríssimo. Reformado da direção de uma empresa pública, a pensão era
suficientemente generosa para não lhe faltar nada.
treino de andar por casa, bem recheado de carnes. — Que se passa?
se passou, seu porco! Que aconteceu debaixo dos meus olhos?
explica-me tudo, mas cá dentro.
alto. — Tens medo de que os teus vizinhos saibam o filho da p** que tu és? —
Ato contínuo, tentou esmurrá-lo no rosto.
enquanto fechava a porta com o pé. Estavam num pequeno átrio de entrada, ao
cimo de umas escadas que desciam para uma elegante sala de estar.
aconteceu, julgava que estava livre das tuas fúrias!
enquanto lhe ia dando estaladas, que ele nem sempre conseguia evitar. — Com a
NOSSA Alice, seu cabrão! — Continuava a espancá-lo. — Ela contou-me porque
tinha tanta pressa em ir para Londres! Está a divorciar-se agora do marido, por
não consegue, nunca conseguiu ter relações normais com ele, por tua causa!
é uma mentirosa, já sabes!
medo de ti e eu não percebia porquê, pois parecias tão carinhoso! — Gabriela
chorava e os tabefes transformavam-se em murros bem direcionados. — Quando te
deixei, nunca teria imaginado que essa tua cabeça porca, esses teus olhos
lúbricos e nojentos se haveriam de pousar na tua própria filha! Julgava que as
porcarias que viviam nessa mente tortuosa e doente estavam-me destinadas, como
castigo de algo mau que pudesse ter feito, não para uma criança inocente!
Porco, cabrão, filho da p**!
dele mudou radicalmente, enquanto devolvia os golpes dela com violência. —
Desde que ela nasceu, só tinhas olhos para ela! Desprezavas-me e já não querias
fazer as coisas, que gostavas tanto de fazer comigo!
farta cabeleira alva e sacudiu-o. Por instantes ficaram um em frente ao outro,
como que a decidir o que fazer a seguir. — Eu amava-te, seu cabrão pedófilo!
Sujeitava-me porque te amava, mas depois comecei a odiar tudo aquilo que me
fazias! Não era natural as coisas humilhantes que me obrigavas a fazer e eu só
soube isso quando conheci um homem a sério e não um frouxo, que só se conseguia
excitar causando dor e sofrimento.
credencia e derrubou a jarra e vários objetos de vidro que lá se encontravam.
Ele aumentou a pressão com dois tabefes que a prostraram no chão. Seguidamente
baixou-se e começou a apertar-lhe o pescoço.
excitado, enquanto ela se debatia e ele aumentava o aperto. — Quase até ser
tarde demais… as vergastadas nesse teu traseiro delicioso…
pontapeando-o no rosto.
sangue a correr pelo rosto e começou a rasgar-lhe as roupas, enquanto lhe prendia
os braços. Deu-lhe uma cabeçada no nariz, que a deixou atordoada. — Sabes? —
Desafiou ainda. — A Alice não valia nada, era em ti que eu pensava quando “a
comia”.
joelhada entre as pernas e ferrar-lhe com toda a força uma das orelhas. Louco
de dor, ele tentou erguer-se com a mulher agarrada de pés, mãos e dentes. Desequilibrados,
acabaram a rebolar pela escada, até ao último degrau, onde ficaram caídos sem
sentidos.
perceção de ser transportada na maca e das vozes nervosas de médicos e
enfermeiros. Estava já a recuperar lentamente a consciência, quando escutou os
restos de uma conversa entre duas enfermeiras: “… marido e mulher, sim. Quase
se mataram de porrada. Ela está aqui e ele do outro lado, na ala dos homens…”
fazer…

