A tia Bela e o Tio Cuca

A tia Bela e o tio Cuca eram o cheiro a café acabado de fazer na cafeteira e as torradas de pão fresco com manteiga a sério.
Mudaram de casa várias vezes, mas para mim a casa deles será sempre na Avenida do Conde, com a varanda virada para a praça cheia de gente e de carros. Ainda hoje não passo por lá sem olhar para cima, na esperança infantil de dizer adeus à tia Bela.
As minhas memórias mais antigas são dos dias que eu e o meu irmão mais velho lá passámos quando o meu irmão mais novo foi nascer ao hospital. Nós, os mais velhos, tínhamos nascido em casa, mas corria o ano de 1972 e os tempos estavam a mudar.
Os meus tios eram quase como nossos pais e o filho deles, nosso irmão — apenas um pouco mais velho.
A minha tia era austera, para além de carinhosa. As coisas tinham de seguir as suas regras e sabia ser firme sem castigar. O meu tio era o extremo oposto: “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”. Se era o melhor no trabalho, era-o também nas brincadeiras.
O tio Cuca era conhecido assim por toda a família. O seu nome era Manuel e, como brincava com as crianças pequenas dando pequenos encostos de cabeça e dizendo “Cuca”, o epíteto ficou-lhe para sempre.
Eu, nos meus sete anos, já me sentia senhor do meu respeito. Brincadeiras, sim, mas dentro de certos limites. Para alguém como o meu tio e o filho, José Manuel, isso era o terreno ideal para boas risadas. Quando me apanhavam em pijama, desciam-me as calças, deixando-me nu. A raiva e a humilhação deixavam-me furioso. Não me recordo do que lhes gritava, mas de certeza não era nada que uma criança devesse dizer. A minha tia acudia sempre, salvando-me dos meus algozes e admoestando-os por entre as gargalhadas deles.
Havia um poderoso elo que ligava o meu pai à irmã Bela e ao cunhado Manuel. O meu tio fora criado desde muito novo em casa dos meus avós, como um verdadeiro irmão. A mãe dele era prima afastada da minha avó e arranjaram forma de o “rapaz” vir da longínqua Válega, em Ovar, para a cidade, ganhar a vida.
O segundo elo era precisamente Válega, terra natal do tio Cuca e paixão do meu pai. Durante muitos anos, a maior parte das minhas férias grandes foi passada nas terras que Júlio Dinis tão bem retratou.
Também para mim aquela terra se tornou um marco. As corridas até ao ribeiro, o contacto com quem vivia do trabalho do campo e das suas necessidades. Válega era a casa dos meus avós e a liberdade de correr mundo, mas também a casa da mãe do meu tio, o curral das vacas e o corredor de entrada para o pátio, de teto envelhecido, onde as rolas arrolavam o dia inteiro.
Nos passeios em família, eu queria sempre ir com o meu tio na sua Lambretta dos anos 60 ou 70. A minha tia, tenho a certeza, preferia ir no carro com os meus pais. Eu sentia-me um verdadeiro motard, capacete na cabeça, atrás daquele homem que adorava e que respeitava cada linha do código da estrada.

No dia a dia era um trabalhador incansável. Via-o no escritório a organizar livros e pagamentos. Saía de manhã montado na bicicleta, percorria o Porto e arredores, e regressava com os bolsos cheios de dinheiro, recibos e promessas, e as pernas carregadas de quilómetros. O descanso encontrava-o sentado no sofá a ler o jornal. Mais do que a família e o trabalho, só o Ovarense — e depois o Belenenses — lhe ocupavam o coração. Discutia futebol e política como só um bom adepto o faz: observando apenas com um olho.
Nas histórias que contava, alternava entre o jogador pequeno e ladino que fintava adversários e o anti-herói sem físico, mas com boas relações, que mesmo em inferioridade numérica tinha sempre um chiste pronto e alguém que o reconhecia como “o Ovarense” e o salvava da situação.
A minha tia era a fada do lar. A casa estava sempre arrumada e a mesa posta para que o marido almoçasse e saísse de novo sem perder tempo. Por vezes era ríspida e sentia-se desconfortável com as brincadeiras dele em público. Tinha um porte altivo, pouco compatível com o tom jocoso do cônjuge. Só um amor forte, feito de cumplicidade e carinho, conseguia manter inteiro tal mosaico.
Com o passar dos anos, as memórias e o reconhecimento do meu tio foram-se apagando dos seus olhos. A sua figura eternizou-se sentada a ler o jornal, por vezes de cabeça para baixo, respondendo de forma ausente e incoerente.
A tia Bela continuou a comprar-lhe o jornal todos os dias. Desdobrou-se em cuidados, contratando ajuda quando a sua própria vista começou a traí-la. Até ao fim, ele teve ao seu lado a extremosa esposa, cuidando para que nada lhe faltasse.
Quando ele finalmente partiu, restou ela, num pequeno apartamento agora grande demais. Sem o propósito da sua vida, também ela se degradou rapidamente, até já não ser capaz de cuidar de si própria. Em pouco tempo seguiu aquele que fora o homem da sua vida, como acontece em muitos casamentos longos.
Deixou o filho, a nora, a neta e dois bisnetos. Havia uma nova família a florescer, e ela achou que o seu trabalho estava terminado. Cabia agora a outros continuá-lo.
Depois de atiradas as últimas pás de terra, despedi-me mentalmente daqueles que foram pilares da minha infância. Ao sair do cemitério, não consegui evitar um último olhar para a varanda da casa da Avenida do Conde e comprovar que a tia Bela já não estava lá.


“o cheiro a café acabado de fazer na cafeteira e as torradas de pão fresco com manteiga a sério…”
Voltei a minha infancia também!
Saudades e abraços desde a Austria!
Esta infância contada com o orgulho e a vaidade por quem ainda a lembra com saudade, é um excelente cromo da caderneta a que chamamos Vida.
Cada um de nós é feito dos muitos cromos que vamos guardando; a tia Bela e o Tio Cuca são pergaminhos vem expostos na presonalidade do autor. Quem conhece o Manuel Amaro Mendonça identifica-o com a disponibilidade e o pragmatismo, com o riso aberto e o olhar atento de quem lê o que vê, mas, essencialmente, com um homem que faz parte do sucesso dos amigos com quem se compromete e ajuda a crescer. Abraço.