Bernardo, o Homem das Peças que Sobravam

Há notícias que doem quando chegam, e não doem menos quando somos nós a dá-las. A partida do Bernardo foi dessas. Rápida, inesperada, como quem sai sem fazer barulho. E deixou um silêncio que não se mede em palavras.
Durante muito tempo, achei que não simpatizava comigo. Falava pouco, com voz áspera, e uma expressão que me parecia de eterna desaprovação. Suzete, sua mulher e minha querida irmã das letras, era afável, sorridente e conversadora. O nosso amor pela palavra escrita é o bastante para debates sem fim. Talvez por isso, desde o primeiro momento, pensei que ele me via com desconfiança.
Surpreendeu-me no dia em que me telefonou. “A Suzete vai fazer anos. Vem almoçar cá com a tua mulher, mas não digas nada. É surpresa.” A voz era a mesma de sempre — seca, sem floreios. Nesse único gesto, ainda que sem abraços nem palavras doces, havia o suficiente.
No café da freguesia, diz quem o conheceu, era presença diária. Sentava-se sempre no mesmo lugar, como quem observa sem se impor. A carapaça de má catadura que muitos viam não era para todos; se entendesse ser a audiência merecedora, era bem-disposto e de habilidades raras. Bastou ler os comentários que surgiram depois da sua partida para o entender.
No Facebook, alguém contou uma história de um rádio avariado que ia para o lixo. Bernardo levou-o para casa e trouxe-o a funcionar. Trouxe também várias peças “que sobraram” — certas frivolidades podem até ser desnecessárias, se o coração que “nos faz tocar” for bom.
As crianças gostavam dele. Não sei se era pela forma como lhes falava — direta, sem condescendência — ou se era pela luz que residia nele, e que com elas parecia refulgir mais. Elas têm esse dom: veem para lá do que parece desagrado. Nele, viam o que muitos adultos demoravam a perceber; um coração bom, uma presença segura e o sorriso que só aparecia quando ninguém estava a pedir.
No seu jeito fechado, era dono de segredos e confissões bem guardadas e até no emprego era o homem de confiança.
Tenho a certeza de que haveria nele coisas que funcionavam melhor à distância… e outras que exigiam uma paciência que nem todos tinham, porque também a rigidez moral tem o seu reverso. Mesmo assim, agora lamento não o ter conhecido bem o suficiente.
Agora que partiu, ficaram os gestos.
Pequenos, quase invisíveis, mas cheios de sentido.
Fica o rádio que voltou a tocar,
o almoço surpresa,
o silêncio que afinal era companhia.
Bernardo não sorria sempre, mas deixava alegria à sua volta. E isso, no fim, é o que mais importa.
Adeus até um dia, meu amigo.

Estimava-te e via em ti e na Mina um casal-exemplo.
À sua maneira, tentou fazer os possíveis e os impossíveis para me apoiar nas minhas aventuras literárias e fazer dos meus amigos seus amigos.
Não se pode pedir mais.
Obrigada, meu querido amigo, por esta bonita e sentida homenagem.
Esteja onde estiver, estará, certamente, feliz por me saber acompanhada pelos melhores; que posso cair de cabeça que a rede à minha volta não me deixa chegar ao chão. Obrigada por seres rede.
Conheci mal o Bernardo e, por vezes, confesso, via-o por um só olho. Pareceu-me sempre um homem desconfiado, de trato fechado, e sem conseguir entrar no planeta da Suzete.
Mesmo assim, e porque é meu costume, nunca me precipitei em considerações, quer porque um homem não é só aquilo que mostra; os comentários após o precose desaparecimento do Bernardo deram mais largueza ao meu pensamento.
O Bernardo, a seu modo, deixou uma marca.