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Terras de Xisto – 7ª Parte – Olho por Olho

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

Naquela noite nevou forte. O chão estava coberto com um espesso manto branco e o ar gelado queimava a pele. O vapor de água que se soltava da respiração parecia congelar em pleno ar.

No solar, André Samões, entontecido pela embriaguez a que não dava tempo de curar, levantou-se da cama apenas com a longa camisa de noite vestida e o chapéu de dormir na cabeça. Patinhou com os pés descalços no soalho gelado, encaminhando-se para as escadas de pedra que davam para a cozinha.

Desceu o primeiro degrau da ingreme escadaria e parou, tentando manter o equilíbrio. Por entre o zumbido que vivia há alguns dias na sua cabeça, escutou, nas suas costas, o patinhar suave do pastor alemão que dormia dentro de casa e que vinha observar o que se passava.

Voltou-se e, qual não foi o seu espanto ao ver um vulto humano calmamente em pé ao lado do cão.

— Que diabo!… — A expressão morreu-lhe na boca ao reconhecer a jovem Maria que lhe deitava um olhar de ódio. Uma mão segurava o animal pela trela e a outra empunhava um cajado. — Que estás aqui a fazer sua bruxa? Como entraste? — Apercebendo-se que não estava em boa situação, gritou: — Quim!

O grito foi cortado com a bordoada que a jovem lhe acertou no crânio. O estampido da pancada fez perceber que já estava morto quando rolou desamparado pela escada, em grotescas cambalhotas.

O corpo do velho fidalgo quedou-se, no fundo, encostado à parede, dobrado num ângulo impossível, para um corpo com vida.

A jovem baixou-se junto do pastor alemão, seu velho amigo, fez-lhe uma festa e beijou-o sobre a fronte antes de se afastar a passos largos para sair por onde entrara.

Quando a Guarda investigou o que se passara, concluiu que o homem, embriagado, perdera o equilíbrio ao descer as escadas e morrera na queda. Não havia sinais de arrombamento e o cão que dormia dentro de casa daria o alarme na eventualidade de haver um intruso. Até porque foi encontrado calmamente sentado ao lado do corpo do dono.

A única suspeita que pôs alguns a pensar foi o relato da filha de uma das criadas internas, com apenas cinco anos, que afirmava ter visto um fantasma negro acompanhado de um lobo, a vaguear pela casa. Mas nem as autoridades, nem ninguém, fez caso da criança.

O ar aqueceu. Maio trouxe as cerejas e agosto os calores do inferno que abrasaram a aldeia. Setembro trouxe as vindimas e as idas e vindas das populações que corriam as aldeias a trabalhar nesta ou naquela colheita.

Dona Genoveva, como irmã do falecido, tomou o controlo das propriedades e despediu os dois facínoras que colaboraram em todo o drama.

O Quim Coxo morreu pouco depois. Regressava da sua horta, eternamente bêbado e caiu do cavalo batendo com a cabeça numa pedra. Não faltou quem anunciasse a visão de uma mulher de negro a vaguear nos montes.

O Linhaças, temendo ser o próximo, mantinha-se escondido em casa até que se foi da aldeia e nunca mais lhe puseram a vista em cima. Dizem que morreu algures pelos caminhos das serras.

Com o tempo, criava-se a ideia da criatura solitária que vagueava, de monte em monte, à procura do marido falecido.

Também dona Genoveva acabou por falecer, quase dez anos depois. No funeral, esteve um carro de praça que vinha do Porto com alguém da família, mas ninguém saiu dele e só a velha criada da senhora falou com o passageiro. Passado pouco tempo, foi ela própria para o Porto, para a casa de uns familiares e também não mais se ouviu falar dela.

A propriedade passou para as mãos dos familiares do Porto, mas nunca nenhum apareceu na aldeia, era tudo tratado por advogados e mandatários.

Haviam-se passado mais de oitenta anos desde os terríveis acontecimentos que assolaram Santiago do Monte e levaram as vidas do Zé Sobreiro e do Luís e André Samões. A sua história estava a ser narrada por um homem dos seus cinquenta anos, baixo e anafado, de cabelos curtos e ar risonho, a outro mais jovem e mais alto. Este último, desconhecido naquela aldeia, sorria prazenteiro ouvindo a narrativa. Estavam em frente ao imponente solar que acabara de sofrer remodelações.

— Diz-se que a pobre Maria, chamam-lhe a Maria Negra, — continuou o aldeão — ainda vagueia por esses montes sem encontrar o marido, morto pelos Guardas e os esbirros do fidalgo. E o solar e as terras estiveram nas mãos da família, até agora que o senhor apareceu. Vem viver para cá?

— As terras ainda estão nas mãos da família senhor Botelho. — A voz grave do desconhecido decorou-se com o sorriso que parecia natural no seu rosto. — O solar foi arranjado porque vai tornar-se uma das Pousadas de Portugal.

— Sabe o meu nome? — O homem mais baixo ficou surpreendido. — Trabalha para a família?

— Então não hei de saber o nome do presidente da Junta de Freguesia da aldeia onde tenho as minhas propriedades? É verdade, eu sou da família.

Botelho ficou felicíssimo com tal revelação.

— A sério? Então sempre é verdade que havia um ramo afastado da família Samões no Porto? Dizia-se que era apenas um escritório de advogados que geria tudo.

— Dizem-se muitos disparates meu caro! Na realidade, não sou um ramo afastado, sou bisneto de André Samões. — O estranho arranjou os óculos escuros para apreciar o trabalhador que, suspenso com cordas do telhado, limpava com afinco o brasão de pedra que decorava a testa do solar.

— Bisneto? — O presidente não queria acreditar. — Mas o velho Samões só teve um filho, o Luís, que foi assassinado pelo Zé Sobreiro, marido da Maria.

— Correção, meu senhor! — O sorriso do jovem desaparecera do rosto quando se voltou para o interlocutor. — Luís Samões morreu numa luta provocada por ele próprio e que não conseguiu ganhar. José de Sousa matou-o numa situação infeliz e involuntária.

— Mas como pode ser bisneto? Como se chama?

— Meu nome é Bernardo Sobreiro. Sou neto de Maria, viúva de José de Sousa, conhecido por Zé Sobreiro. Nome que a minha avó adotou.

Perante o ar do mais completo pasmo do homem, Bernardo continuou:

— Dona Genoveva, minha tia-bisavó, não deixou apenas dinheiro à minha avó Maria, deixou-lhe também um papel que ela, como não sabia ler, só algum tempo mais tarde soube do que se tratava. Era uma cópia do registo de nascimento de uma Maria filha ilegítima de Emília e de André Samões assinada pelo próprio pai.

— E… A sua avó… — Balbuciou o homem.

— A minha avó faleceu há cinco anos, velhinha, mas bem tratada com muito amor pelos seus três netos. Era uma comerciante abastada e estimada no Porto. — Continuou — Como pode ver, a Maria Negra não reside senão na mentalidade do povo ignorante. Agora se me dá licença, tenho de ir falar com o empreiteiro. Tive muito gosto em conhecê-lo pessoalmente e espero vê-lo mais vezes.

Botelho quedou-se mais uns segundos em frente ao imponente solar, cheio de vida e operários, observando o jovem herdeiro que caminhava a passos largos para uma herança forjada no sangue dos antepassados.

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