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Terras de Xisto – 6ª Parte – O fim de uma era

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

O dia seguinte amanheceu gelado, mas seco, com o chão coberto de neve suja e calcada.

Logo cedo, a aldeia assistiu à saída de um grupo de dois Guardas, a cavalo, acompanhados de alguns homens do Samões para baterem os montes atrás dos dois assassinos. Mas foi só ao anoitecer que o pequeno grupo regressou e formou frente ao solar. Traziam um um corpo atravessado na sela.

Corria uma brisa cortante anunciando a aproximação de mais neve.

Quando André Samões chegou ao pátio, já se encontrava uma pequena multidão aansiosa por assistir ao desenrolar do drama.

Um dos Guardas soltou a capa que envolvia o corpo que caiu desamparado, com um baque surdo, no chão empedrado, coberto de branco.

Um gemido de espanto percorreu a assistência ao observar o rosto cinzento e sem vida do Zé Sobreiro.

— Já o apanhamos, senhor Samões. Estava numa gruta e já finado. — Informou o cabo da Guarda.

— Um assassino já está! — Trovejou com a voz trémula de emoção. — Onde está a mulher? Quero-a também. Tem de pagar pelos crimes desta besta que morreu antes de os expiar!

Os dois guardas olharam-se interrogativamente.

— Não fiquem aí como parvos! — Tornou, furioso. — Vão! Quero aqui aquela cabra também. Morta ou viva!

Entre resmungos, guardas e lacaios tornaram indolentemente às montadas e começaram a afastar-se deixando o cadáver abandonado no chão.

Quase no mesmo instante surgiu, na outra ponta do largo, novo guarda montado num cavalo castanho num galope desenfreado.

— Parem! — Ordenou, reduzindo a marcha do animal reluzente de esforço.

Num trote mais calmo, aproximou-se dos seus dois companheiros enquanto a população, que principiara a afastar-se, tornava à cena dominada pela curiosidade que era maior do que o medo da guarda.

— Manda o senhor comandante que tornem sem demora ao quartel. — Informou o recém-chegado.

— Que se passa? — Exigiu saber o Samões — Para onde vão agora que deixam um assassino à solta?

— Ordens do nosso comandante, senhor Samões. Estamos de prevenção, recolher ao quartel e aguardar ordens.

— Mas que aconteceu, homem de Deus? Fala, que houve de tão grave?

O jovem guarda olhou para os companheiros, indeciso se deveria ou não falar. Mas acabou por decidir-se:

— Mataram El-rei D. Carlos.

Um coro de gemidos e gritos de incredulidade ecoaram por entre a pequena multidão que se benzia.

Em passos largos, o fidalgo aproximou-se do guarda, exclamando e perguntando ao mesmo tempo:

— Como?!? Não é possível! Mataram-no, ou feriram-no?

— Mataram-no, senhor! Houve um atentado no Terreiro do Paço. Mataram o rei e não se sabe quem mais. Dizem que a rainha estava cheia de sangue parece que os filhos estavam caídos na caleche como mortos também. Foi uma mortandade.

— Quem é responsável por tal infâmia?

— Fala-se na Carbonária. Os guardas do rei mataram um tal Buiça e mais não sei quantos que estavam ligados a eles.

— Bastardos do inferno. Que o diabo os leve a todos.

— Vamo-nos! — O jovem guarda insistiu para os companheiros. — Com sua licença, senhor Samões.

Um burburinho dominava as pessoas que se quedaram na praça vendo os três guardas que se afastavam indolentemente, pensando felizes: Morrera um rei, mas pelo menos não iriam passar a noite ao relento atrás de quem não queria ser encontrado.

Estas mortes, no entanto, não anunciavam o fim da tragédia, mas sim o seu auge.

Luís morreu no dia seguinte. Parecia ter aguardado pacientemente a chegada do seu executor para o acompanhar no caminho para o inferno.

Louco de dor, André Samões mandou que tocassem fogo na casa de Maria; o processo levou junto duas das casas vizinhas pois as chamas descontroladas não se deixaram dominar com facilidade. O Linhaças de braço ao peito e o Quim Coxo com a cabeça e uma vista ligadas por uma ligadura suja, cumpriram o odioso trabalho com gosto. Mais duas famílias sem-abrigo se juntaram ao rol de desgraças que a luta de Luís e José de Sousa causaram. Em vão, rebuscaram os escombros ainda fumegantes da habitação na esperança de encontrar o corpo calcinado da jovem que acreditavam estar algures lá dentro.

A fúria consumia o fidalgo que mandou espancar o tio de Maria em plena rua para que lhe dissesse onde se escondia a sobrinha.

— Diz-me onde está essa cabra! — Gritou Samões fora de si para o corpo coberto de sangue e hematomas do homem que se contorcia de dores. — Só podes ser tu e a p* da tua mulher quem a esconde.

Aterrorizadas, as pessoas não se atreviam a sair à rua. Espreitavam a medo à janela atraídas pelos gritos de socorro do velho e sendo rapidamente despachadas para dentro por ameaças dos esbirros do senhor da aldeia.

Como a vítima se limitava a gemer que “não sabia de nada”, foi agraciada com um forte pontapé nas costelas, antes do fidalgo se afastar, ameaçando:

— Cura-te depressa! Se a bruxa da tua sobrinha não aparecer até à próxima semana, virei cá dar-te outra malha. E assim será todas as semanas até que tenha essa cabra nas minhas mãos para lhe dar o corretivo que merece antes de a entregar à Guarda.

Afastou-se, a passos largos, seguido pelos dois meliantes que lhe guardavam as costas.

Os homens de Samões ainda bateram os montes próximos, por alguns dias, indo até às aldeias vizinhas em busca de informações da fugitiva, mas tudo foi inútil. Maria tinha-se esfumado no ar.

A semana passava-se lenta, mas inexoravelmente enquanto a vida na aldeia ameaçava voltar a um normal, mas tenso movimento. André Samões fechou-se em casa e saía poucas vezes a não ser para insultar este ou aquele empregado que por infelicidade passava mais próximo das suas fúrias.

Na distante Lisboa coroaram D. Manuel II, filho do infeliz D. Carlos I, que tentava a todo o custo unir o reino órfão, debaixo da sua coroa.

Faltava um dia para fazer uma semana sobre a tareia dada a Joaquim e toda a semana o Linhaças fez questão de ir lembrar o pobre velho e escarnecer da chorosa mulher que lhe pedia por todos os Santos que tivesse piedade do marido que ainda estava de cama, muito mal.

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