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Terras de Xisto – 5ª Parte – Confronto

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

O som de uma pancada acordou-a e fê-la saltar na cama, sobressaltada.

Sentou-se e pôs-se à escuta.

Lá fora, o vento uivava e ouviam-se as gotas de chuva misturadas com a neve, que caíam no telhado. Pela janela da sala conseguia ver que era já noite e avizinhava-se tempestade.

Nova pancada, desta feita conseguiu perceber que era na porta da varanda que dava para um canelho das traseiras.

Sem acender o candeeiro aproximou-se e espreitou pelo vidro da porta, pois se o quisessem partir, já o teriam feito. No chão da varanda estavam duas pedras do tamanho de um punho e, enquanto olhava, uma outra surgiu, em voo, resultando em nova pancada na porta.

— Quem é o endemoinhado? — Perguntou abrindo de rompante.

Ar gelado e a neve bateram-lhe com força no rosto, enquanto espreitava para a rua e tentava distinguir quem era o homem que se ocultava na escuridão.

— Maria! — Uma voz por demais familiar chamou num sussurro.

— Zé! — Quase gritou. — Que fazes aí, homem de Deus, que se te pilham, matam-te. — Tapou a boca rapidamente e olhou para trás como se o Coxo estivesse ali na sua casa.

— Atira-me a chave da loja. — Pediu ele, notando-se um sorriso na voz. — Depressa, que me gelo.

Correu à cozinha, espreitou pela frincha da porta. O “carcereiro” não se encontrava no seu posto, possivelmente procurara um sítio mais abrigado da tempestade que se anunciava. Pegou a chave pendurada num prego e atirou-a da varanda.

Atenta, ouviu abrir suavemente a porta da cave e tornar a fechar. Arrastou o mais silenciosamente que pôde a mesa do meio da cozinha e afastou o tapete expondo a porta que abriu imediatamente.

Do buraco escuro emergiu um vulto rapidamente identificado pelo rosto sujo, mas sorridente do Zé Sobreiro e ambos se atiraram nos braços um do outro, num abraço fremente de amor e alívio.

De repente, a jovem empurrou-o e começou a dar-lhe murros no peito e a invetivá-lo:

— Estúpido! Bandoleiro! Que fizeste tu, alma perdida? Como foste capaz de nos levar à perdição desta forma?

O homem, do alto dos seus quase um metro e noventa, abraçou novamente Maria, prendendo-lhe os braços e fazendo-a parecer uma criança nas mãos de um gigante, enquanto suplicava:

— Perdoa-me meu amor, mas aquele fideputa fez-me perder a cabeça. Provocou-me, insultou-te e desafiou-me para a luta.

Desanimada, deixou-se prender naquele enorme, mas suave amplexo.

— O que foste fazer… valham-nos todos os Santos!…

— Como é que ele está? — Quis saber sem a soltar.

— Que o salve o Diabo, porque se Deus o salvar, é por nós e não por ele. — Sentenciou a jovem.

— Mas morre? — Afastou-a, olhando-a nos olhos com um ar de preocupação.

— Que sei eu? — As lágrimas afloravam novamente aos grandes olhos castanhos. — Dizem que está como morto e que o médico não sai de ao pé dele. Parece que até chamaram outro do Porto.

— Aquele infeliz… — Abateu-se de olhos no chão. — Sabia que não podia comigo, porque cismava sempre de se bater? Pedi-lhe que me deixasse e acabei por lhe virar as costas. — O tom de voz elevava-se à medida que as recordações acudiam, vivas, à memória. — O bastardo descarregou-me uma varada nas costas e, quando dei por mim, lutávamos os dois furiosamente à bordoada.

Maria benzeu-se rapidamente enquanto ele continuava a narrativa:

— Foi enquanto o Diabo esfrega um olho que o bandalho ficou estirado no chão a sangrar da boca e do nariz. Fiquei-me aparvalhado, como se tudo aquilo fosse um sonho, até que o tio Joaquim me agarrou no braço e disse “Vai-te rapaz. Vai-te depressa que te matam.”. Corri como um louco, montes fora e só parei na Pala da Ovelha por cima da estrada que vem da Vila.

— Santo Nome de Deus! — Exclamou a jovem. — Os lacaios do Samões correram os montes todos esta noite.

— E eu não os vi? Não acendi fogo nem nada, gelei-me ali aninhado nas pedras noite toda sem um pio.

— Ninguém entrou na Pala?

— O estranho foi isso. O João do Nabal entrou. Não levava archote, olhou a toda a volta e saiu. Ouvi-o dizer aos outros que lá não estava ninguém.

— Acho que desconfiou que lá estavas, é bom homem o João.

— Também achei. Achas que poderá ajudar-nos?

— Não sei. É bom homem, mas não desafia o patrão. É melhor não fiar.

— E agora? O que fazemos? — O desalento dele era reforçado pelo cansaço visível nos olhos encovados do rosto tisnado pelo sol.

— Temos de fugir, e depressa. Falei com o João do Nabal e com a dona Genoveva. Todos me dizem que temos de fugir. Queriam que fosse mesmo sem ti, acham que a desgraça maior ainda está para acontecer.

— E vamos para onde?

— Primeiro vamos pelas ruínas da casa da Ribeira. A dona Genoveva, que os anos lhe sejam leves, deixou lá algumas moedas para podermos começar a vida, depois temos de ir para qualquer lado.

— Tenho família em Amarante… — Disse pensativamente.

— Podemos ir, mas não já. Se o Luís morrer, a Guarda há de estar lá à nossa espera. Nem em Soutelo, nos meus parentes vamos passar. Vamos diretos a vau pelo rio em direção a Alijó e dali ao Porto, como me disse o meu tio. A cidade é grande e não darão por nós tão fácil.

Não tiveram tempo de planear mais. Com um estrondo, a porta da cozinha abriu-se de par em par para permitir a passagem do Quim Coxo e do Linhaças numa nuvem de flocos de neve.

— Não te disse que vi o excomungado a entrar aqui? — Perguntou ufano o último.

Zé ergueu o cajado e puxou Maria para trás de si:

— Vinde, filhos da p*, mostrem lá se têm tomates que cheguem para me apanharem.

À luz tremeluzente do candeeiro, os dois facínoras olharam-se com um ar de riso.

— Olha, olha! — Gozou o Coxo — Já a formiga tem catarro.

— Tenho aqui uma coisa para ti. — O Linhaças puxou voluptuosamente do cinto um revólver que apontou. — Gostas?

Maria apertou-se contra o Zé que, preocupado, avaliava a situação.

— Julgas que eu sou o patrãozinho? Armado aos herois? — A boca com poucos dentes soltava perdigotos. — O doutor Samões quer falar contigo, mas podes já não estarás vivo quando lá chegares.

— Depois virei tratar dessa rameira que aí tens. — Ameaçou o Coxo.

Os dois olharam-se novamente e tornaram a rir desabridamente.

Aproveitando a distração, Zé empurrou Maria para o interior da casa e descarregou pesadamente, apesar do pouco espaço, o bordão na mão armada do Linhaças que uivou de dor:

— Ai filho da p* que me partiste a mão!

Usando o pau como uma lança e foi a vez de quebrar costelas do Coxo, que chocou com força contra a antepara da porta da cozinha.

Como um relâmpago, tornou para o Linhaças que gemia e chorava agarrado à mão partida e apontou-lhe o bordão à cabeça:

— Queres ficar estendido de uma vez, filho de um cabrão? — A voz do Zé estava alterada pelo esforço e pelo ódio. — Não me custa nada matar mais um.

Um estampido ecoou nos ouvidos de todos.

O facínora e o Zé continuavam a olhar-se de olhos arregalados até que este último tombou de joelhos e em seguida de borco, largando o bordão que rolou para dentro da sala.

Sem o enorme jovem na frente, o Linhaças pôde ver o Coxo deitado no chão empunhando o revólver fumegante que se perdera na refrega.

Um com a mão e outro com as costelas e um braço partidos, colocaram-se junto ao corpo desacordado.

— Será que o patrão precisa mesmo falar contigo? — O Coxo empunhava a arma apontada à cabeça do ferido. — Ou vamos ter de alombar com um porco morto até ao solar?

Só o zurrar do riso do Linhaças se fazia ouvir no interior da casa.

— Não ouves? — O Coxo gritava — Dá-me uma boa razão para não te mandar para os infernos já.

O outro saltava de excitação enquanto esfregava a mão ferida e gritava:

— Mata-o! Mata esse filho da p*, ou deixa-me que o mato eu. — De repente, um esguicho de sangue salpicou-o e olhou incrédulo o seu companheiro que se abatia pesadamente com uma expressão de espanto no rosto ensanguentado.

Restava Maria, em pé, empunhando uma sachola sangrenta.

Após uns segundos de hesitação, o Linhaças deu meia-volta e desapareceu correndo pela porta da rua, escorregando na neve e chocando com as pessoas que, atraídas pelo disparo, principiavam começavam a amontoar-se à entrada.

A jovem atirou a enxada para o chão, apanhou o bordão e ajudou o Zé a erguer-se sussurrando-lhe:

— Vem meu amor. Vamos embora daqui.

Embora atordoado e a perder sangue profusamente, abandonaram a casa deixando um rasto vermelho na neve por entre a pequena multidão que abria alas à sua passagem.

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