Terras de Xisto – 4ª Parte – A visita da Guarda
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
No caminho, estacou à porta da dona Genoveva. Uma casa altaneira com a fachada de granito bem aparelhado, ostentando um decrépito brasão em pedra deitado ao abandono, sujo por limos e pelas pombas que abundavam por ali.
Dona Genoveva era a irmã mais velha de André Samões; era viúva de um juiz e muito respeitada na terra. Desde pequena que Maria corria a todo o momento para casa da viúva onde todos gostavam dela. Era acarinhada pela senhora, todos os criados e até o senhor doutor juiz, do alto do seu ar austero, lhe fazia de quando em vez uma festa na cabeça. Quando casou com o Zé Sobreiro, a velha senhora deu-lhes uma bolsa com uma boa soma em dinheiro e lençóis em quantidade tal que os não gastariam na sua vida. Gostava muito do Zé. Apreciava o seu ar sério, a atenção que dava às conversas e a opinião que sempre tinha para dar sobre todos os assuntos. Mas, gostava principalmente da sua frontalidade e honestidade, fruto da rudeza da vida.
Após hesitar um pouco, bateu com o pesado batente na vetusta porta de madeira. Arranjou o cabelo, compôs o vestido, limpou as lágrimas à manga do casaco e atirou os ombros para trás mesmo a tempo da porta se abrir por mão da Maria do Reis, a governanta da casa, quase tão velha como a própria patroa.
O rosto enrugado espreitou pela frincha da porta, de baixo para cima, até se quedar no rosto da jovem. Após um franzir de sobrolho, o rosto iluminou-se num sorriso que logo se transformou numa expressão de tristeza.
— Mariazinha, minha filha, que fez o teu Zé, valha-o Deus…
O lábio inferior da mais nova tremeu e as lágrimas quase brotaram novamente da fonte que eram os seus olhos, mas contendo-se, pediu:
— Ti Maria, preciso falar com a dona Genoveva.
A pequena e corcovada velha abriu a porta de par em par e encerrou-a logo que ela entrou enquanto a fitava entristecida.
— O Quim Coxo acabou de sair daqui com um recado do senhor André. A senhora está muito aborrecida.
— Que lhe disse o excomungado?
— Já sabia que havias de passar aqui e por isso mandou o mafarrico com ameaças. Mas a senhora te contará.
Atravessaram o corredor e chegaram a uma sala, aconchegada pelo calor de uma lareira que crepitava frente a um cadeirão que se encontrava de costas para a porta. A luz da janela descia sobre ele criando uma clareira de luz que a suspensão do pó dava uma aura de santidade. Numa das paredes, uma prateleira erguia-se até ao teto apinhada de livros. Tudo como se lembrava antes. Quantas tardes ali passara a folhear os livros cheios de letras que mal percebia e que a dona Genoveva cheia de paciência lhe foi ensinando. Ao lado do cadeirão uma pequena mesa continha vários livros e uma mão magra e ossuda mudava-os de posição.
— Minha senhora! — Chamou a velha — Está aqui a Maria da Emília para lhe falar.
O recordar assim o nome da mãe trouxe-lhe mais um montão de lembranças. A velha senhora pegava-lhe no colo e chamava-lhe Emiliazinha pois dizia que era um retrato pequenino da mãe e ainda mais bonita que ela.
Uma cabeça repleta de cabelos de prata espreitou pela lateral do cadeirão antes de se erguer, agilmente, revelando uma mulher alta, rosto enrugado e corpo esguio envolto numa camiseta aos folhos preta e uma saia de balão da mesma cor ao gosto das famílias abastadas da época. Era uma mulher dura para tempos duros e gozava de boa saúde nos seus setenta anos de vida e vinte de viuvez.
A velha senhora enclavinhou as mãos ao peito enquanto caminhava na direção delas com uma expressão mista de tristeza e ternura, no rosto pálido ainda belo decorado com uns enormes olhos azuis cheios de vivacidade:
—Mariazinha, pobre querida, que tropelia te arranjou aquele rapaz!
Abraçaram-se com força e as mãos de pergaminho afagaram-lhe a cabeça enquanto ela se entregava livremente às lágrimas.
— Não sei o que faça da vida, minha senhora, parece que me caiu o céu em cima da cabeça.
A empregada chorava silenciosamente tapando a boca com o lenço das mãos.
— Tens de te ir daqui minha filha. Corres perigo. O André mandou cá aquele canalha do Coxo para me avisar que te não ajude.
— Não posso ir. Não quero ir sem o meu Zé. — A recusa surgia entre os soluços no rosto encostado ao peito da idosa.
— Não podes esperar. Se o Luís morre, não sei o que fará, mas estou certa de que não será nada de bom.
Maria empertigou-se de repente e, de rosto corado e coberto de lágrimas afirmou na voz mais firme que conseguiu:
— Ele e os dele podem tentar o Diabo comigo, mas, ou me matam, ou hei de eu levar o Diabo até ele.
Genoveva estremeceu com a determinação que se via no rosto dela.
— Vais precisar muito dessa força, querida menina… dela toda, pois acho que ainda tens muito que sofrer antes que termine este drama.
— Eu sei, senhora, eu sei. — Assim como surgiu aquela força demolidora, da mesma forma desapareceu e a cabeça dela tombou envergonhada sobre o peito.
A idosa pegou uma bolsa de couro que se encontrava na mesa ao lado do cadeirão dizendo:
— Já tinha isto preparado para ti. Não to dou já porque acho que quando fugires, e vais ter de fugir, não estarás com este dinheiro contigo nem conseguirás ir por ele a casa. A Maria irá escondê-lo no forno das ruínas da casa da ribeira. Não é muito, apenas o bastante para poderes começar a vida noutro lado longe daqui. Quando te fores, corres para lá, pegas a bolsa e desapareces o mais depressa possível, sozinha ou acompanhada. — Agarrou o pequeno rosto entre as mãos e encostou a cabeça olhando-a nos olhos — Promete-me.
A jovem soltou um suspiro intervalado com soluços e tornou numa voz nasalada como que uma criança apanhada em falta:
— Só irei sozinha se o meu Zé estiver morto. E mesmo assim… será melhor que esteja eu também.
Os intensos olhos azuis pareceram perder o brilho enquanto descia as mãos do rosto ao longo dos braços de Maria.
— Não te deixes abater pobre criança. Tens tanta vida pela frente!
— Vinha-lhe pedir para me aceitar ao seu serviço, temos tão pouco dinheiro, acaba, não tarda e não sei quanto tempo terei de esperar pelo meu homem…
— Ai, valha-te Santa Luzia que te ilumine o caminho, mulher! Não sejas teimosa, corres um perigo muito grande. — A velha criada interveio.
— Estou velha demais para enfrentar o monstro do meu irmão abertamente. Dinheiro já tu tens e bastar-te-á ir buscá-lo. É a única forma com que me atrevo a desafiá-lo.
Maria olhou o enorme quadro por cima da lareira com o falecido juiz Joaquim Pimentel, marido de Genoveva. Porte altivo, cartola e bengala, olhando de cima de um monte para a extensão de terras que lhe pertenciam. Sempre a fascinara aquele quadro que a fazia olhar para aquele homem como se fosse um rei.
— Se ele ainda fosse vivo, talvez a senhora me pudesse ajudar…
— Quem o pode saber agora? — Genoveva olhava para o quadro também — Olha que não era tão boa rês como possas pensar. Tinha muitas coisas más e só Deus sabe que partido tomaria, se o teu ou do demónio do meu irmão.
— Vou embora então. — Os olhos vermelhos e tristes enfrentaram a idosa — Não sei mais a quem recorrer, mas, como lhe disse, não irei sem o meu marido. Acho que estou grávida e ele ainda não sabe. — A criada sufocou um soluço com o lenço e recomeçou a chorar — Mas penso que devo ao meu filho um pouco mais do que a minha mãe me deixou, porque não quero que cresça sem saber o que é ter um pai. Assim que conseguir falar com ele ou tiver forma de lhe entregar um recado, com toda a certeza ir-me-ei. Antes não. Obrigada pelo carinho, amor e apoio que sempre me deu e continua a dar agora, nunca me esquecerei de si, minha senhora.
Pegou ambas as mãos da idosa que agora chorava também e levou-as aos lábios antes de se afastar, em passos largos para a porta, com a criada a correr atrás dela.
— Não te esqueças! — Genoveva gritou ainda em voz trémula sem abandonar a sala — No forno da casa da ribeira, não te vás sem o levar… pela alma da minha querida amiga Emília, tua mãe, a quem eu queria mais que uma irmã.
Saiu para a rua após beijar apressadamente a velha criada que chorava inconsolável.
O ar estava mais denso e, desaparecida a névoa, um vento cortante fazia-se sentir debaixo do céu escuro que anunciava neve.
Limpava ainda as lágrimas à manga do casaco quando chegou à porta e, pelo canto do olho, apercebeu-se do mau agoiro que significava o Quim do outro lado da rua com uma manta pelas costas e que, com um ar jocoso, lhe gritou antes de soltar uma gargalhada:
— Foste ver a tiazinha? Não pode fazer nada, pois não?
Uma vez mais, bateu a porta com força quando entrou.
Já no seu quarto, nas traseiras da casa, sentou-se na cama pensando no que deveria fazer… deveria fugir como todos recomendavam? Deveria esperar pelo Zé para fugirem juntos? De que seria capaz o André Samões? Será que é mesmo seu pai e não se atreverá a fazer-lhe mal ou estará aqui a oportunidade de se livrar de uma filha incómoda?
Repentinamente apercebeu-se do silêncio.
Todo o barulho normal da aldeia, os risos das crianças, as vozes das pessoas, os passos na rua…. tudo desaparecera, conseguia-se ouvir apenas o vento que vinha do vale a assobiar nas janelas.
O sapatear ritmado de cavalos ferrados começou a ouvir-se próximo até estacar junto da porta.
— Ela está lá dentro! — Denunciou a voz odiosa e acusadora do Coxo.
— Ó da casa! — Uma outra voz tonitruante chamou do exterior. — Está aí alguém?
No exterior, a voz não insistiu, mas Maria abriu a meia porta superior e espreitou.
Dois Guardas montados em imponentes cavalos esperavam frente à porta com o Coxo mais atrás.
O vento estava mais forte e pequenos fiapos de neve esvoaçavam aqui e ali empurrados à deriva.
— Que me querem? — Interrogou o óbvio, tentando dar uma firmeza que não sentia à voz.
— És a mulher de José de Sousa, conhecido por Zé Sobreiro? — O mais forte e aparentemente mais velho, falou com os lábios escondidos por um bigode farfalhudo e com um olhar vivo que procurou imediatamente o dela.
— Sim, sou. Mas ele não está.
— Pois não deve estar, não. — Riu o outro Guarda enquanto desmontava. — Bem bruto seria se estivesse aqui à espera de que viessemos à pergunta dele.
— Mas temos de verificar a casa. — Recomeçou o outro de cima do cavalo. — Vem aqui para o meu lado rapariga. Que aí o quarenta e três vai ver se o meliante está ou não.
Obedientemente aproximou-se da montada e postou-se de frente para a porta enquanto o Guarda mais novo, de sabre em punho, entrava na casa.
— Ele num ‘tá aí sôr Guarda. — A voz do Quim sentenciou por trás dos dois — Tenho-lhe a porta debaixo d’olho, desde ontem e cá não abeirou.
O Guarda permitiu-se um olhar por cima do ombro, antes de avisar:
— Sai-me de trás da montada para que te veja.
Obedeceu à ordem, com um ar jocoso, enquanto repetia:
— O fideputa num está aí, o senhor Samões mandou-me guardar a porta e aqui estou desde ontem.
— És empregado do André Samões? — Inquiriu o Guarda com ar desconfiado e medindo-o de alto abaixo.
— Sim senhor. — Confirmou com uma mesura. — O mais dedicado deles, posso assegurar a vossa senhoria.
Maria exibiu uma expressão de asco e afastou-se dele.
— Eh lá cachopa! — Advertiu o cavaleiro. — Quietinha aí!
Ela obedeceu com relutância.
Da casa ouvia-se remexer e barulho de panelas a cair.
— Que anda ele a cirandar lá dentro? — Maria impacientava-se. — Dois quartos e uma cozinha demoram tanto tempo a espiolhar?
— Caluda rapariga! — Tornou a advertir. — Ele faz o que precisar de ser feito.
No mesmo instante, a porta abriu-se e o segundo Guarda saiu empunhando uma chouriça inteira que trincava com um ar de satisfação.
— Casa de pobres, eh? Um tinto de estalo e uns enchidos de chorar por mais…
— E o mafarrico? — Inquiriu o outro.
— Num o vi por lá nem rasto dele. — Afirmou enquanto montava. — Por esta altura nem os diabos lhe deitam a mão.
Voltando-se para Maria o mais velho admoestou:
— Nós vamos voltar e ele há de dar com os costados na jaula. Se estiveres com ele ou o ajudares vais lá parar também. Olha por ti que nós voltamos.
— E vê lá se tens mais um copito e um chouricito prá gente. Não te importas que tenha comido este, pois não? Já estava ali à mão e tudo. — O mais novo riu.
— Não, não tem mal nenhum. — Afirmou ela com arrogância. — Já estamos habituados a ser roubados e aqueles chouriços eram mesmo para os porcos.
Maria esquivou-se, por um triz, ao pontapé que ele lhe atirou enquanto procurava desembainhar a espada.
— Eh lá! Para com isso ó Fonseca. — Gritou o Guarda mais velho rindo-se e segurando-lhe o braço. — Mereceste a resposta. Vamo-nos daqui.
Embora relutante, o visado obedeceu dando a volta à montada e deitando um olhar de ódio à jovem que lhe virou as costas dirigindo-se para casa.
Os primeiros flocos mais pesados começavam a chegar ao chão contra a força do vento que não dava tréguas enquanto os dois cavaleiros se afastavam pela rua deserta, indolentemente, observados por alguns moradores que só se atreveram a pôr a cabeça de fora após a sua passagem.
O Quim intercetou-a antes de entrar em casa. Agarrou-lhe o braço, aproximou o rosto do dela e segredando:
— Deixa-o enquanto é tempo. Vem comigo e eu farei de conta que o não vejo. O menino Luís é um bastardo que bem mereceu o que lhe aconteceu.
Num gesto brusco para soltar o braço do aperto, Maria acertou-lhe, de raspão, com a ponta dos dedos no rosto e gritou:
— Vade retro, sorte maldita! Antes ir prá cama com uma ninhada de lacraus.
Feito isto correu para casa e bateu com a porta deixando o pretendente sozinho na rua sob a observação da vizinhança que agora assomava às janelas sem receio.
— Hás de pagá-las, cabra maldita! Tu e o cabrão que te montou. És uma cabra estéril, mas eu hei de “chegar-te” até me fartar. — Gritou furioso o desprezado, antes de se afastar, mancando, para o seu posto de vigia.
Os vizinhos começaram a fechar as janelas e a recolher-se pois estava frio e o espetáculo tinha terminado.
Dentro de casa, ela atirou-se para cima da cama a chorar a sua desdita e assim esteve tempos infindos até se deixar adormecer pelo cansaço da dor e da noite por dormir.
