O Beijo
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
– Linda…- O sussurro masculino, soprado ao seu ouvido, como uma brisa morna que lhe trouxe arrepios na espinha, quase a despertou completamente.
segundos de preguiça, no calor da cama, com os olhos fechados e um
sorriso nos lábios finos e claros.
e o corpo franzino sob os lençóis, o aspeto de uma criança
traquina.
quase junto à vista direita, em conjunto com um suspiro do hálito
que tantas vezes sentira na sua boca.
correu ao logo do seu nariz até pingar sobre o tecido da travesseira.
penumbra do quarto, para espreitar o relógio sobre a mesa de
cabeceira. Confirmava-se o aviso: Era realmente tarde.
pouquinho no aconchego da cama esperando que viesse mais um carinho,
um sussurro ou um beijo… Que nunca vinha.
botão do leitor de CD que iniciou a sua rotina interminável a tocar
a música ao som da qual se amaram tantas vezes.
E estava tão cansada!.
se voltar, tateou a parte fria dos lençóis remexidos procurando
alguém que sabia que não estava lá.
deixando-se envolver pelos acordes melodiosos antes de, como um
autómato, erguer-se e caminhar para a casa de banho calcando os
montes de roupa espalhados pelo chão.
desperta, de olhos enegrecidos de noites mal dormidas e quedou-se
olhando a cama vazia de lençóis revoltos.
espalhadas, o espelho da cómoda partido e restos de molduras e
fotografias por todo o lado.
pouco para destruir e há muito tinha desistido de arrumar.
atropelamento, à porta de casa, tinha-a deixado para sempre. No
entanto…
familiar de milénios de manhãs consecutivas, vinha-a despertar
trazendo-lhe a sensação da sua presença, a noção do seu amor
imortal.
sono e a realidade que antecedia o despertar completo e evaporava-se
como fumo em poucos segundos.
presença e a sensação do beijo a queimar-lhe no rosto pelo resto
do dia.
promessa matinal do amor que não vinha e as noites agitadas,
aguardando uma vez mais a doce voz que a chamava e o beijo que a
despertava.
posição fetal…
emprego nem de mais nada.
regresse, à espera que passe rapidamente o dia e retorne a
madrugada, à espera de mais do que um beijo, à espera que seja mais
do que invisível… ou que a leve.

