Solidão
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Molhei uma bolacha no leite e saboreei a textura mole e doce que me enchia a boca e parecia trazer à memória doces e antigas recordações… o meu pai na longínqua aldeia transmontana, de calça de cotim e camisola grossa de lã, com o inseparável chapéu na cabeça à minha espera para me levar à carreira que me levaria à escola, a minha mãe sempre com um “Despacha-te rapaz que o teu pai está à espera.” ou “Acorda, não durmas em pé, não vês o que estás a fazer?”.
Não pude evitar um sorriso, já lá vão tantos anos… sessenta, setenta? Hmmm, deixa ver, eu tenho… bolas quantos anos tenho? Também não interessa, já foi há muitos anos e os pobres coitados devem estar no céu, que Deus os tenha, porque aturar-me não deve ter sido fácil.
Estão a mexer na porta, deve ser ela, a Julia. Sim, tem o mesmo nome da minha filha, mas não pode ser ela, porque ela é ainda uma criança… deve estar na escola talvez, não sei. Por aqui não está agora.
A mulher magra de cabelo escuro e casaco comprido cumprimentou-me com um “Olá pai.” e um beijo na face como de costume. Coitada, deve sentir-se sozinha, ao menos eu ainda tenho a Celeste, não fala, mas pelo menos está ali e ouve-me.
– Então? Como está hoje? – Perguntou-me na voz musical que as mulheres que nos têm carinho conseguem fazer – Como estão os ossos? Dormiu bem?
– Sim estou bem, obrigado. – Assenti enquanto ela vestia a bata que usa para fazer a limpeza à casa e que representava o passo inicial antes do ataque frenético que fazia à sujidade e desarrumação que eu, por muito que me esforçasse, não conseguia evitar.
Acabei o meu leite e o copo e o prato desapareceram da minha frente como que por magia.
– E então? – Recomeçou ela enquanto lavava a loiça que estava amontoada no balcão da cozinha – Pensou no que lhe disse?
Não me recordava de nada da ultima conversa, nem de alguma pergunta que me tivesse feito… fiquei a cismar.
– Não se lembra? – A voz entristeceu de repente – Sobre ter alguém que cuidasse de si a tempo inteiro, ir para um sitio onde as pessoas estão treinadas para o ajudar no que é preciso e lhe mantivessem a roupa limpa e o ajudassem nos banhos… enfim, melhor que eu que só posso vir uma vez por semana e a muito custo.
Franzi o sobrolho… não me lembrava nada daquela conversa e não me agradava nada a ideia:
– Sair daqui? Que queres dizer com isso, porque deixaria a minha casa?
– Oh, pai, falamos disso na semana passada. Não percebe que precisa de uma ajuda maior do que a que eu lhe posso dar? – Insistiu.- O pai não consegue cuidar de si sozinho, já tem 90 anos.
– Não, não me lembro de nada disso. – Retorqui deixando a cadeira e avançando para a a janela onde me quedei de costas voltadas para ela. – De resto, como me iria embora daqui? Deixava a tua… mãe sozinha?
– Oh meu Deus. – Havia lágrimas na voz dela mas continuava a lavar furiosamente a loiça – Outra vez isso? A mãe morreu há quase dez anos! Por favor!
– Morreu?!? – Indignei-me voltando-me para Júlia – Como, morreu? Não a vês ali sentada? – Voltei-me para a mesa e instiguei – Celeste, diz alguma coisa… – Ela não estava lá.
Senti uma tontura e uma pressão no peito, o ar parecia faltar-me, estava sempre ali e agora não estava, uma sensação terrivel de estar a reviver algo que já tinha acontecido atingiu-me com violência.
– Pai? – A voz de Julia estava preocupada – Pai, está bem? Está muito branco, venha sente-se, desculpe falar assim, …
Afastei os braços que me estendia e caminhei o mais rápido que podia para o quarto da minha mulher.
A porta estava fechada à chave mas com a chave do lado de fora.
Tremendo, abri-a de par em par e entrei como um furacão.
Um cheiro a naftalina invadiu-me as narinas enquanto olhava em volta; a cama estava apenas com uma coberta por cima do colchão, a arca que estava sempre aos pés da cama coberta com roupa para costurar, estava sem nada.
Abri o guarda-fatos. Vazio!
Sem forças deixei-me cair pesadamente sobre o cadeirão à cabeceira da cama… onde passei tantas horas e tantas noites a velar o sono inquieto e o respirar pesado dela nos seus últimos dias…
Agora recordava-me de tudo, as memórias vinham em catadupas dolorosas e as lágrimas corriam-me livremente no rosto. Sentia o sabor salgado na boca enquanto chorava mansamente um choro velho de anos já chorado tantas vezes.
Júlia, encostada no umbral da porta, chorava comigo a repetição da dor da perda da mãe, já tantas vezes repetida por mim.
– Pai. – Pediu – Não chores por favor.
Mas as lágrimas não paravam e eu só tinha olhos para aquela cama vazia onde em tempos esteve a mulher que amei e que foi minha companheira durante tantos.
– Deixa-me, deixa-me. – Solucei – Vai embora por favor.
Ela retornou à cozinha num passo arrastado e eu deixei-me ficar parado a tentar limpar a minha mente de todas as recordações, de toda a tristeza que me sufocava em catadupas de dor. Deixei-me ficar à espera que ela se fosse e eu pudesse ficar novamente em paz… entregue ao doce oblivio.
Deixei-me ficar, com dores na alma à espera que o Alzheimer retomasse conta de mim… e talvez então ela voltasse… mesmo sem falar.

