Esperança
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
a conservar aquela chave. Ao utilizá-la, acederia a um mundo que
deveria estar esquecido e ao qual ele não pertencia. Por uns
segundos, considerou dar a volta e ir embora desaparecendo para
sempre daquela situação.
fechadura e abriu a porta que cedeu sem dificuldade.
com a mão direita tateou, conhecedor, o botão que acendeu as luzes.
trazia tantas recordações… e apenas tinham passado três meses
desde que estivera ali a última vez.
um dos quais tombado. Havia amendoins e pistáchios espalhados no
tampo e no chão.
lápis da torre Eifell, que ele fizera numa outra vida. Durante a lua
de mel na cidade luz. Tudo estava como antes; a mesma mobília, os
mesmos tapetes, as mesmas pinturas…
dia em que se fora.
receio. – Onde estás?
acendeu a luz porque a iluminação que saía da porta para onde se
dirigia era suficiente.
devagar.
abandonada no chão, que rebolou para debaixo da cama. Parou junto ao
candeeiro de mesa de cabeceira que também ali jazia tombado.
cobertores, almofadas e longos cabelos escuros desalinhados, estava
um corpo imóvel enrolado sobre si próprio.
mão sobre o braço da jovem, sussurrando:
trás dos cabelos negros, enquanto a voz chorosa se lamentava:
desta foi de vez…
:
livremente no rosto belo que ele descobrira com movimentos suaves
por trás da cortina de cabelos. – Voltei a fazer-lhe uma cena,
ele tinha-me avisado que não me aturava mais cenas de ciúmes.
rosto e perguntava:
forte. – Elas comem-no com os olhos, não posso ir com ele a lado
nenhum que elas querem tirar-mo e ele é meu, só meu!
descontroladamente.
não mostrava particular interesse enquanto lhe afagava o cabelo.
empregada nova… loira, pequenina, passou a noite inteira a
fazer-se ao Carlos.
– Censurou-a com meiguice. – Sei-o bem. Não estaria a pequena a
ser simpática apenas? É uma empregada, tem que agradar aos
clientes.
olhou-o nos olhos:
homem? Baixava-se de forma a mostrar o decote todo! Dava para ver o
umbigo!
a atirar-se a ele. Quando estávamos a meio da refeição ela veio
perguntar se estava tudo bem e eu não aguentei mais. Gritei-lhe que
viéssemos embora.
coisas e fazer-lhe uma bebida mas aí quem explodiu foi ele. Atirou
com as coisas, gritou que não me queria ver mais e foi embora.
Agora nem me atende o telemóvel…
vai passar.
caída na perna dele gozando dos afagos carinhosos e cheios de amor
que recebia.
entre as lágrimas. – E tratei-te sempre tão mal…
querer redimir. – O tom de voz alterou-se ficando mais cínico. –
Por isso não vamos falar do assunto.
arrastar. – Eu não queria fazer-te… mal.
altura de mudar de vida e mudaste…Tomaste alguma coisa? –
Perguntou preocupado.
sono…
manhã… Como de costume, ela ligava-lhe e ele corria para os braços
dela a consolá-la… Das dores de outro.
espaços por pequenos suspiros. Ele não se cansava de lhe acariciar
o cabelo. Parecia incrível como amava aquela mulher que o desprezara
e abandonara. E ele tornava a correr, como um cachorrinho, sempre
que ela estalava os dedos; deixava a casa, a cama e a sua atual
mulher, que cada vez achava menos graça à situação.
pingou nos lençóis.
levantou-se.
última chamada recebida e leu: “Chamada perdida, Carlos 5 de maio
2010 1:45”
atendia o telemóvel…
número:
que me chamaria. (…) Está a dormir agora. Parece que tomou um
calmante. (…) Sim, vem para cá, eu vou embora. (…) Vá lá, já
sabes como ela é, fica furibunda mas é doida por ti e não
consegue conter os ciúmes. Vem para cá e deita-te ao pé dela,
vais ver que amanhã fazem as pazes. Um abraço. (…) Não te
preocupes, sabes que me preocupo com ela e que vocês podem contar
comigo. Adeus.
cama. Cobriu-a com o lençol, depositou-lhe um beijo na testa e
sussurrou-lhe docemente:
para ti… Um dia hás de pedir que o faça… Prometo aqui que só
me tornarás a ver nesse dia… E, mesmo que não te torne a ver,
amo-te demasiado para te desejar mal. Adeus.
caminhou lentamente até à porta fixando demoradamente cada objeto
do corredor e a posição de cada móvel. Tinha a sensação que não
mais voltaria ali.
próprio se a deveria deixar na mesa da sala.
chegar à porta da rua. Uma vez aí, pensou que um dia, Isabel iria
precisar de ajuda novamente; iria telefonar e ele viria correndo uma
vez mais, na esperança que fosse para ficar.

