Terras de Xisto – 3ª Parte – Expulsão
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
O Quim Coxo era outro dos elementos da sua vida. Desde criança que a perseguia e dizia que haveria de casar com ela, mas claro que não se atrevia a dizê-lo quando o filho do patrão andava por perto.
A chegada de Zé transtornou-o imenso; sentia-o um rival contra quem não queria perder e, na maior parte das situações em que Luís e Zé se envolveram em luta, o Quim Coxo estava por perto incentivando o patrão.
Um dia, atrevera-se até a pedir ao Senhor Samões para casar com ela, mas o velho não o quis ouvir, o que o tornou ainda mais rancoroso. Os acontecimentos daquela noite configuravam-se na altura ideal para se vingar deles todos.
Tarde na noite, Maria espreitou por uma das muitas frinchas da porta. O vigia, embora não tivesse arredado pé, dormia com a cabeça caída sobre o peito embrulhado numa manta.
Saiu pé ante pé, cosendo-se com a parede, envolvida nas sombras, envergando a sua melhor roupa e a cabeça coberta pelo xale.
Contornando a última casa no lado esquerdo da rua, entrou por uma pequena abertura na parede que a ladeava, acedendo ao terreno onde a maior parte das pessoas despejavam os dejetos ou satisfaziam as necessidades fisiológicas. No meio de horríveis miasmas, parou e certificou-se de que ninguém a seguia antes de avançar através do carreiro de terra que terminava abruptamente num declive íngreme com cerca de vinte metros e que dava acesso a outro dos caminhos da aldeia.
Já tinha iniciado a descida com alguma dificuldade quando, muito perto, o resfolegar de um cavalo a sobressaltou. Tentou divisar no escuro a origem do ruído e apercebeu-se do homem deitado ao lado do cavalo, atrás de uma enorme pedra, convenientemente escondido de quem quer que subisse o caminho em direção ao povoado.
Recuou rapidamente dando graças às almas por não ter trazido a candeia e assim não ter sido vista.
Não tendo hipótese de passar por ali sem que a vissem, decidiu recolher-se a casa novamente e, numa prece rápida, pediu a Deus que o seu marido se mantivesse longe dos caminhos e não se atrevesse a vir em busca dela. Sim, buscá-la, porque sabia do fundo do seu coração que ele seria incapaz de fugir sem vir por ela.
Ao chegar à porta reparou que o Quim estava acordado e que ficou alarmado com o facto dela ter saído sem que ele visse.
Por uns segundos, os seus olhares cruzaram-se. O dela, carregado de desprezo e o dele de ódio e desejo. Uma vez mais a porta bateu com estrondo quando entrou.
Deitou-se quase vestida. Não tirou a roupa interior que a mantinha quente e deitou-se assim sob as mantas tentando dormir… sozinha pela primeira vez em três anos… precisava descansar um pouco numa noite que, por estar tanta coisa a acontecer, parecia não ter fim.
Acabou por adormecer de cansaço entretida entre o pensar e o rezar.
Acordou completamente esgotada, como se tivesse apenas acabado de fechar os olhos. O barulho típico das madrugadas da aldeia; a voz dos vizinhos a caminho dos terrenos para trabalhar, acompanhada pelas dezenas de tamancos de madeira batendo na calçada.
Ergueu-se cambaleante e abriu as portadas de uma das janelas. Escondeu os olhos da luz e encaminhou-se para o jarro e a bacia de esmalte onde lavou o rosto com água gelada.
Sentou-se na cama desalinhada e deixou cair a cabeça entre as mãos sentindo-se derrotada.
Mas foi desânimo de pouca dura. Buscou energias à sua alma transmontana, trocou rapidamente para a roupa de trabalho, pegou a celha que estava na cozinha e saiu para a rua como se nada se tivesse passado.
Havia uma névoa fina espalhada entre as casas e o ar frio cortava a pele do rosto e das mãos.
O Coxo já não estava na escadaria, restavam os morrões dos cigarros que fumara, atestando a sua vigília até bem tarde.
Caminhou, apressadamente, com a celha debaixo do braço. Estava atrasada para se juntar às lavadeiras que cuidavam das roupas da casa grande e a governanta não gostava nada disso.
Conseguiu alcançar as três companheiras ao chegar aos portões da casa.
— Maria! — Exclamou a mais jovem com um ar assustado — Ai, valha-me Deus, mulher, como foi que aconteceu aquela desgraça?
Tentando manter a calma para não recomeçar a chorar disse simplesmente:
— Nem eu sei rapariga. Ainda não sei do meu Zé e o Quim Coxo não me largou a porta a noite toda.
— Eu vi. — Apoiou a outra de ar mais maduro e de rosto escurecido pelo sol ornado por sobrancelhas hirsutas. — Também o Manel da Horta e o Linhaças andaram canelho acima, canelho abaixo toda a santa noite. Se o teu marido abeirasse, por certo o apanhavam.
— Ontem queria ir ter contigo, sabes? — Tornou a mais nova — Mas o meu marido… fartou-se de gritar comigo. Estava a ver que me batia. Disse-me que quem se juntasse a ti ia ficar marcada.
— Tolice! — Exclamou a mais velha.
— Tolice? — Contrapôs com ar presunçoso a que até aí não falara — Pois fiquem vossemecês com a certeza de que isto não vai ficar assim e se não apanharem o Zé, quem vai pagar é essa daí, ou quem com ela “fizer sociedade”.
As outras duas calaram-se enquanto Maria olhava com espanto para aquela que julgava sua amiga. Nenhuma parara de caminhar enquanto atravessavam o umbral do portão de acesso às traseiras da propriedade e aos tanques onde lavavam a roupa.
Quando já se encontravam do outro lado, uma voz masculina chamou:
— Maria! Ó Maria, para-te aí que te quero falar.
Era o João do Nabal, o capataz do solar. Assim que o viram, as outras três mulheres aceleraram o passo e desapareceram rapidamente de cena. Com ele vinha um dos enormes mastins que ajudavam na guarda da propriedade e que saiu correndo prontamente em busca dos afagos de Maria que o acarinhava, a ele e a um irmão desde cachorrinhos.
A jovem ficou sozinha à espera do homem alto, senhor dos seus quarenta anos, de costas direitas e uma cabeça onde brilhavam os cabelos brancos sobre um tronco de barril. Ela deu-lhe um sorriso triste enquanto afagava distraidamente a enorme cabeça do cão. João era uma boa alma embora gritasse com os empregados como se os quisesse comer, ela tinha boas recordações infância às cavalitas dele para tratar dos cavalos.
Ele trazia o rosto sério e os olhos tristes quando chegou ao pé dela e perguntou sem mais:
— Tiveste novas do Zé?
— Não senhor. Não o vejo desde ontem quando foi para a festa. Como está o menino Luís?
Ele olhou em volta para se certificar de que ninguém se apercebia da conversa de ambos e respondeu:
— Não está nada bem. Não dá acordo dele e não solta um ai a picadela nem pancada. Veio o doutor Ferreira da vila e passou a noite no solar, mas já mandaram chamar outro do Porto, porque não se recomenda que o mexam.
— O Bom Deus nos acuda. — Gemeu Maria.
— Estou aqui porque o senhor Samões me mandou ao teu encontro. — A jovem olhou-o nos olhos, angustiada. — Mandou-me dizer que não te quer mais ao serviço da casa. Que te vás embora e não abeires mais ou manda pôr-te na rua.
— Ai, Senhor dos Aflitos, que vai ser da minha vida? — Uma torrente de lágrimas irrompeu dos seus olhos enquanto enclavinhava as mãos numa súplica para o comovido capataz. — Que hei de fazer, ti João?
Como se não a ouvisse, ele continuou:
— E quer também que deixes a horta que te deu o ano passado. Podes ir hoje apanhar tudo o que puderes e não voltes lá ou manda correr-te à chibata.
O homenzarrão olhou para o chão, para que ela lhe não visse as lágrimas que teimavam em querer sair e rematou. — Vai-te embora, rapariga. Não tens família ali para Soutelo?
— Não posso. Não sem o meu Zé. Tenho de esperar por ele.
— Não faças essa sandice. Vai enquanto é tempo, se o menino morrer, o velho Samões vai querer vingar-se e não apanhando o Zé…
— Tenho de esperar por ele. — Teimou erguendo o nariz num desafio — Se me for embora ele não saberá onde ir ter comigo.
— Alguém lhe dará o recado. O teu tio por exemplo. Não digas a mais ninguém para onde vais.
— Só saio daqui com ele.
— Vai-te embora pelo amor de Deus! — Ele perdeu a paciência — Não vês que vai ser a tua perdição e a dele? Os empregados andam a bater os montes e se o apanham… ele tem muitos inimigos entre eles, bem o sabes.
Maria deixou cair a cabeça, desanimada. As lágrimas corriam copiosas pingando pelo nariz num choro silencioso.
João, passou-lhe a mão calejada pelo cabelo cor de carvão num gesto carinhoso, velho de anos. Quase num sussurro, antes de se afastar na direção da casa senhorial, disse ainda:
— Não fiques por cá, rapariga. Vai-te daqui, porque enquanto não fores o Zé não sairá das redondezas e vão acabar por dar com ele. De cabeça baixa, sozinha na entrada do portão, sentia que havia milhares de olhos postos nela de todos os pontos visíveis da propriedade. Deu meia-volta, afastou-se em passos curtos e chorando mansamente, encaminhou-se para casa.
