Terras de Xisto – 1ª parte – A festa fatal
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

Corriam os primeiros anos do século XX.
Na longínqua Lisboa, reinava despreocupado o bom rei D. Carlos e o mundo parecia ordenado e em paz;
O rei reinava, o governo legislava, os regedores mandavam, os proprietários enriqueciam e os pobres trabalhavam… engordavam os primeiros, enriqueciam os segundos e morriam de fome os últimos.
Tempos duros aqueles, em que o pão de cada dia era arrancado à força de braço nas terras cobertas de xisto. Eram longínquas as terras, agora tornadas próximas por autoestradas lavradas nas montanhas e máquinas possantes que devoram quilómetros.
Esta história começa muito para trás dos remotos montes do Norte do país, numa aldeia que, vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario de Santiago do Monte, estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima, ramificando-se em pequenos becos, de forma mais ou menos aleatória. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e o extremo mais alto, pela Igreja, tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos ricos.
Naquela noite, o extremo mais próximo do palacete, estava sossegado, não havia ninguém na rua e as luzes das casas apagadas há algum tempo. Já passava das onze horas da noite e era véspera de um novo dia de árduo trabalho que começaria logo aos primeiros alvores.
O céu daquela noite de inverno, excecionalmente sem nuvens, era dominado pela lua cheia cujos raios prateados iluminavam a paisagem.
O tropel apressado de tamancos de madeira perturbaram a paz da noite, ecoando rua fora nas paredes que alternavam entre o xisto dos mais pobres e a alvenaria dos mais ricos.
Na casa verde ao pé da fonte, as pancadas violentas na porta acordaram a jovem mulher que ainda há pouco adormecera.
— Ó ti Maria! — Uma voz esganiçada de jovem gritava num dueto com as pancadas na porta —Ti Maria, abra a porta!
A jovem ergueu-se gritando um “Quem é?” mal-humorado, enquanto desamarrotava a camisa de noite e se cobria com uma pequena manta. Os cabelos negros compridos, que lhe chegavam ao meio das costas, estavam caídos sobre o nariz fino e afilado, dançando à frente dos olhos azuis.
As pancadas e os chamamentos repetiam-se como se a não ouvissem:
— Ó ti Maria!
— Mafarricos te levem rapaz! Já lá vou! — Gritou novamente, enquanto atravessava a cozinha e se dirigia para a entrada.
— Acuda à porta, depressa! — Os gritos insistiam.
Abriu a porta com brusquidão, surpreendendo o ofegante adolescente, escanzelado e de cabelos negros revoltos, que a olhava entre o surpreendido e o assustado.
— Que foi? Que queres rapaz, que acordas as almas deste mundo e do outro? — Maria, senhora dos seus quase trinta anos, enfrentou o jovem.
— Venha depressa! — Ofegou — Venha depressa, foi o Ti Zé… na taberna do Faustino…
Estas últimas palavras disse-as já em corrida de regresso para onde viera, tamanqueando rua fora e insistindo: — Venha depressa!
— Espera, rapaz! — Gritou ela — Rapaz! Tiago! Espera! Que aconteceu com o meu Zé? Fala!
Era inútil. Já não a ouvia, tamancando que ia de volta.
Ela correu para o interior da casa gemendo de si para si: “Mafarrico… que terá acontecido? Aquele endemoninhado lá se meteu em sarilhos outra vez.”
Vestiu uma saia, cobriu-se com o xale de lã e saiu correndo atrás do rapaz.
Agora eram os tamancos dela que ecoavam na rua, ritmados com a respiração ofegante em crescendo com a sua aflição: “Não há ninguém na rua… que terá acontecido…? está toda a gente para lá…”
O seu marido José, não perdia uma festa e porque era grande e forte, enconcontrava sempre alguém com um copito a mais, que resolvia medir forças com ele. Saía sempre vitorioso; arranhado, pisado, mas vitorioso.
Maria sentia-se cada vez mais inquieta e, ao chegar à taberna a rua já iluminada por vários archotes, começava a distinguir o burburinho que havia para lá da esquina.
O frio mordia-a nas pernas mal protegidas e queimava-lhe as mãos e o rosto deixando-a corada. O seu respirar ofegante transformava-se em nuvens de vapor que saíam da boca.
Reduziu a velocidade instantaneamente assim que encontrou o ajuntamento.
Todos se calavam e abriam alas à sua chegada, rostos apreensivos, preocupados ou mesmo zangados.
— Que aconteceu? — Perguntava à direita e à esquerda sem que lhe respondessem. — Que houve, vizinha? — Perguntou à mais próxima, que a olhava tristemente com os olhos rasos de água. — Diga-me por amor de Deus o que aconteceu, Ti Eduardo. — Pediu, sem parar e com os passos cada vez mais curtos, ao homem dos olhos grandes, que os desviou para o chão.
Acabou chegando ao centro do ajuntamento… uma obscena poça de sangue negro como a noite, estendia-se no meio do círculo.
Uma nascente de lágrimas brotou dos olhos de Maria ao deparar com tão terrível vestígio e colocando as mãos enclavinhadas ao peito, chorou desesperadamente:
— Ai, valha-me Deus, o meu Zé! Ai, meu Senhor Misericordioso, valei-me!
— Cala-te mulher! — A ordem com uma voz forte carregada de desprezo, veio do outro lado da poça. — Cala-te, que choras por quem o não merece. — Por entre os soluços, olhou surpreendida o fidalgo que a olhava com porte altivo balouçando o pingalim na mão esquerda contra o cano da bota. — Maldita és que trouxeste a desgraça à minha casa!
Com as mãos no peito, ela olhava incrédula em todas as direções à procura de uma alma caridosa que lhe explicasse o que se passava e porque era ela a causa da fúria do senhor Samões, o homem mais importante da aldeia.
— Esse sangue que aí vês, pertence ao meu filho que acabaram de levar daqui entre a vida e a morte, vítima do maldito assassino que é o teu marido! —Apontou o pingalim ao peito dela, como se tratasse de uma espada e ameaçou: — Cautela, Maria Sobreiro, hoje mesmo o Zé Sobreiro há de ser caçado como um cão e trazido de rastos aos meus pés para responder pelo crime que cometeu. Se te atravessares no meu caminho, ou dos meus homens, hás de levar tamanha tareia que nunca mais poderás andar pelo teu pé. Palavra de André Samões! Que sejas maldita tu e o perro canalha com quem te casaste com a minha bênção, amaldiçoada a hora. A ele, hei de esfolá-lo de chibatada como a um miserável que é e a ti, se me voltas a aparecer à frente, mato-te com as minhas próprias mãos! Terminou a ameaça com uma chibatada na diagonal, muito perto do rosto da tão apavorada como espantada jovem e fez meia-volta, empurrando da sua frente os mais lentos, à medida que se afastava em passos rápidos e decididos.
