O Assalto

January 11, 2016

** Foi distinguido com o 1º prémio no 7º concurso literário Papel D'Arroz Editora

** Incluído na coletânea "Um Dia de Loucos" da mesma editora

 

 

 

Naquela tarde quente de agosto, três homens conversavam, por entre a frescura bem vinda das árvores. Faziam um interessante trio. Com roupas que já conheceram melhores dias e socas de pau, espraiavam-se na pequena clareira, como que esperando alguma coisa.

–     Pois é como te digo, Xico. - Dizia o das fartas suíças, sentado num tronco de árvore, enquanto acariciava uma pistola ornamentada. - Desta vez não há que enganar! Se algum se armar em galaró, amando-lhe um chumbo entre os olhos, que há de logo ir dar com os cornos aos pés do mafarrico.

O mais novo dos três, com largas melenas encaracoladas, a escapar-se do chapéu puído, benzeu-se apressadamente.

–     Ora, tem juízo, Zé. - O terceiro, tronco de barrica, barba farta e pele morena, rematou. - Aposto que nem sabes usar esse farragatcho. Estoura-se-te o bacamarte na mão e quem vai desta p’ra melhor és tu!

–     Quê? - O outro ergueu-se de um salto, sacudindo a arma no ar. - Nem tu imaginas as bujardas que já mandei com esta daqui!

–     Ensina-me a atirar com o bacamarte, Zé! - Pediu o mais novo.

–     Isto não é um bacamarte, Tone, sua cavalgadura! - Exclamou o visado, com ar de entendido. - Isto é uma pistola! E uma pistola de fidalgo, por sinal.

–     E atão onde arranjaste essa fidalguia? - Quis saber o Xico.

–     Não te alembras da “visita” à casa do juiz Sarmento?

–     Bô! - O outro não queria acreditar. - Pois astreveste-te a pôr as unhas na pistola do velho baboso? E não disseste nada?

–     Ora pois, aqui, como a vês!

–     Deixa-me atirar, Zé! - Tone insistiu.

–     Quieto! Isto não é brinquedo, Tone, ainda matas alguém! Deixa-te por aí com o varapau e a faca, que é onde és mais artista!

–     Pois a merda do juiz pouco lá tinha que se aproveitasse. Uns cobres descuidados e umas pratas... aposto que o fideputa tem os dobrões enterrados por lá.

- Não te podes queixar muito. – Continuou Zé. – Lembras-te do presuntinho que mamamos na taberna do Julião à custa do que trouxemos de lá?

- Atão não? E aquele tinto de estalo? – Xico concordou.

–     Dispara tu, então, Zé! Deixa-me ouvir! – Tone insistia indiferente às lembranças gastronómicas.

–     Deixa-o, Tone! - Riu-se Xico. - Tenho cá a ideia que esse patranhas nem sabe usar a geringonça.

–     Dizes tu, ò zangão! - Zé enervou-se pela utilização da sua alcunha e ofendeu o outro com a dele. Mas começou a explicação aos dois, que entretanto se aproximaram... - Isto é só carregar a póvora e a bala e já está! Ósdepois puxa-se aqui o fecho e está pronta a...

O potente estampido produzido pela arma deixou todos sem fala enquanto o chapéu de palha do Xico voava e o seu rosto ficava coberto de fuligem.

–     Ah! Excomungado dos demónios! - Gritou o Xico Zangão erguendo o varapau. - Por um cibo não me arrebentavas com os cornos, filho de um cabrão!

–     Foi sem querer, desculpa! - Gritou o patranhas fugindo para trás de umas pedras próximas.

–     Deixa-o! - Pediu Tone colocando-se no caminho do ofendido. - Não vês que foi sem querer?

–     Se tornas a chegar-te a mim com esse estadulho dos infernos, racho-te à barduada! Seu patranhas desmiolado!

–     Pronto! Desculpa, já disse, fugiu-me o fecho dos dedos. - Desculpou-se Zé.

Amuado, Xico sentou-se numa pedra a resmungar sozinho. Não era sem razão, que era conhecido por zangão; as suas fúrias repentinas e o ar de poucos amigos, punham qualquer um em respeito. A aldeia raiana de onde provinham, era fértil em rebatizar os seus habitantes e Zé, por seu lado, era o patranhas, sempre a exagerar as histórias em que se envolvia e os resultados delas, que a maior parte das vezes lhe eram desfavoráveis. Já o Tone, irmão de Xico, era o canhoto, ou o russo. Poucos gostavam das alcunhas que lhes davam, mas todos colaboravam nos batismos populares que, à falta de outra coisa, podiam servir como insulto ou provocação.

Mantendo um olho na arma e o outro a vigiar o Xico, Zé recarregou a pistola com pólvora e colocou a esfera metálica que pressionou para o fundo do cano, várias vezes, com a vareta. Em seguida, testou o fecho de pederneira, várias vezes, para se certificar que não se repetia o acidente. Tone falava baixo com o irmão que não parava de resmungar.

O relincho próximo de um cavalo, deixou os três de ouvido apurado. Breve se começaram a escutar vozes masculinas que conversavam calmamente.

–     Estão aí! - Sussurrou Zé, correndo para junto dos outros.

Ato contínuo, Tone, em vários saltos, deslocou-se sobre as pedras para o maciço de árvores que os separava da estrada e pôs-se a espreitar.

–     Já lá vêm! - Sussurrou.

–     Quantos são? - Quis saber Xico.

–     Dois na carroça e um a cavalo. O cavaleiro deve ser gente fina, belo chapéu, boas botas...

–     Merda! A coisa deve ser coisa fina, mesmo. Para trazer um guarda...  - Reconheceu Zé. – Hoje vamo-nos consolar outra vez na taberna… ai presuntinho…

–     O badocha não te disse o que traziam? - Xico ficou desconfiado.

–     Não. Disse que levavam coisa fina para o solar dos Resendes.

–     Ai! Raios me partam, que caio sempre nas tuas patranhas.

–     Bô! Mas que queres tu? Não encheste os bolsos com o outro mercador de Penafiel? E o peleiro de Amarante? Não vinha cheio de moedas? O badocha não se costuma enganar!

–     Pouca ladradeira aí! - Sussurrou Tone. - Tão quase a chegar! Apresta-te lá prà frente deles, Zé, já que tens o bacamarte.

–     Pistola, asno! - Ralhou-lhe o visado enquanto corria para emboscar a carroça.

Na estrada, se se pode chamar assim ao caminho de terra batida que ziguezagueava por entre as árvores, os dois carroceiros conversavam despreocupadamente. O cavaleiro que os seguia parecia dormitar em cima da sela. A caixa da carroça vinha ocupada com seis arcas de madeira, cobertas com uma enorme sarapilheira suja.

Com a cara tapada por um colorido lenço e a pistola apontada aos viajantes, o patranhas caminhou calmamente da berma para o meio da estrada, até que o vissem.

–     Alto lá! - Ordenou.

–     Que é isto? - Indignou-se o condutor da carroça.

–     Isto é um negócio a não perder, amigos forasteiros, - Brincou Zé. - Vocês deixam a carroça e os cavalos e eu deixo-vos ir embora vivos.

O cavaleiro preparou-se para esporear o cavalo mas, ao nível do rosto, surgiu-lhe a ponta do varapau de Xico que avisou:

–     Quieto aí ò echelência! Não queremos amassar esse bonito chapéu, pois não?

–     Que querem vocês, escumalha da estrada? - A voz carregada de desprezo, fez-se ouvir, enquanto mirava o salteador maltrapilho, de cara tapada, que o ameaçava.

–     Não vos disse já o meu amigo ao que vínhamos? - Tone saltou para a carroça, com um varapau numa mão e uma faca com doze centímetros de lâmina na outra. - Queremos o que tão bem guardais!

–     Pois sabes tu quem queres roubar? - Perguntou o carroceiro voltando-se para o salteador nas suas costas. - Esta encomenda é para o casamento da filha do senhor da casa do Pinheiro!

–     E a filha também aqui vem? Se viesse talvez se lhe arranjasse serventia! - Riu Tone.

–     Pelo menos durante algum tempo! - Apoiou Zé soltando uma gargalhada.

–     Escumalha! - Sem dar tempo a Xico reagir, o cavaleiro puxou de uma pistola que apontou para Zé. O visado, que tinha a sua própria arma apontada para o ar, baixou rapidamente a pistola para disparar. A esfera de chumbo caiu do cano, para espanto de todos.

Quem salva a situação é Xico. Desfechou uma violenta pancada na arma do cavaleiro fazendo-a disparar-se inadvertidamente junto à orelha da montada. Assustado, o animal empinou-se, derrubando o cavaleiro em cima do assaltante e desatando num galope desenfreado. Zé conseguiu atirar-se para o lado no último momento e salvar-se de ser pisoteado. O carroceiro controlou o outro cavalo com dificuldade, enquanto Tone ameaçava o pendura com a faca:

–     Quieto aí, ò artajeiro! Não te astrevas a mexer!

A força descomunal de Xico foi suficiente para, com um empurrão e um soco, levar a melhor sobre o cavaleiro apeado e ameaça-lo com a sua faca:

–     Quieto já! Ou queres ir visitar o barzabu? - Sem tirar os olhos do homem, gritou para Zé. - Que os diabos te encham de pulgas, trampolineiro de um raio! Não te disse que esse bassouro só ia arranjar m...?

–     Caiu a porcaria da bala! Que queres que te faça? Era pequena! - Desculpou-se ele.

–     Vocês são uns pantomineiros! - Acabou por rir-se o cavaleiro. - O circo está montado!

Xico socou o homem com força num braço:

–     Estás a pedi-las! Vamos levar as coisas e deixar-vos aqui, vê lá se queres que te  deixe com uma perna partida.

–     Deixem-se de refustedo! - Gritou Tone. - Amarra esse fideputa, e tu, Zé, anda aqui ajudar a amarrar estes! Deixa a excomungada da bala, não procures mais!

Rapidamente, os três homens foram sentados de costas uns para os outros e amarrados todos juntos. Os apavorados carroceiros mantinham as cabeças baixas mas o cavaleiro continuava desaforado e olhava furiosamente os assaltantes.

–     Que foi? - Xico deu-lhe um pontapé num braço. - Queres comer-me é? Tens muito que crescer, ò fininho!

–     Ainda hei de descobrir quem são vocês! Arranjarei com que deem com o lombo no calabouço, seus facínoras!

–     Isso querias tu, fidalgote! - Agora era Zé apontava a pistola ao nariz do provocador. - Olha que já está carregada!

–     Onde arranjaste uma arma decorada a prata, pelintra? - O homem não se intimidava.

Os três assaltantes olharam-se e depois olharam a arma.

–     Não sabiam! - O cavaleiro soltou uma gargalhada. - Vocês são os ladrões da mais triste figura que já vi!

–     Vamos embora daqui antes que eu arrebente com o cornos a este artajeiro. - Disse Xico.

Saltaram os três para a carroça e começaram a deslocar-se rindo-se e acenando adeus ao infortunados assaltados. O cavaleiro ficou a insulta-los e a amaldiçoa-los em altos berros.

Depois de uma viagem de mais de uma hora, em que Xico não parou de insultar e humilhar um amuado Zé, pararam afastados da estrada, junto de uma descida para o rio.

Atiraram-se às arcas e rebentaram os fechos para verem o valor da presa; a primeira, estava cheia de pratos da mais fina porcelana, pintados à mão. Tone ficou-se de boca aberta a olhar para os outros exibindo uma das coloridas peças de loiça.

Furiosos, abriram todas as arcas. Mais pratos e copos de cristal. Não havia dúvidas que tinham entre mãos a loiças destinadas ao casamento da filha do senhor da casa do Pinheiro.

–     Por todos os demónios dos infernos!!!!! - Gritou Xico numa fúria, dando murros e desfazendo as tampas das arcas. - Só roubamos cacos!!!! Ai a cabra da sorte!!!

–     Quando eu puser as mãos no moncoso do badocha, vou fazê-lo em pedaços!!! - Exclamou Zé, ultrajado.

–     Eu havia de te arrebentar as fuças a ti, seu patranhas do inferno! Tu é que nos meteste nesta porcaria! Porque é que me deixo sempre levar por ti? - Xico ergueu Zé pelos colarinhos enquanto encostava nariz com nariz.

–     Esperem, esperem! - Tone sorria. - Sei de um galego em Chaves que dará bom dinheiro por isto, os pais dele têm uma tenda na Espanha e vendem esta bosta toda lá. Às tantas ainda compra o cavalo e a carroça também. Estamos safos!

Xico atirou com Zé para o chão da carroça:

–     Pode ser que não seja por hora que mando este infeliz para o inferno! Vamos ver também se não quer comprar uma pistola decorada a prata!

Cabisbaixo, Zé ergueu-se, apanhou a adorada pistola do soalho da carroça e meteu-a na cinta. Prendeu-a pela corda que lhe segurava as calças puídas.

–     Vamos embora então. - Disse Tone enquanto se sentava no lugar de condutor da carroça. - Temos que chegar com dia.

Zé encaminhou-se para o lugar do pendura e estava a sentar-se quando Xico o empurrou para fora:

–     Espera lá! Agora vou eu aí!

Desequilibrado, ele saltou da boleia para junto das patas traseiras do cavalo. A pistola caiu-lhe da cinta e bateu com força numa pedra. O disparo ecoou como uma bomba no silêncio do vale e o animal espantou-se com o súbito ruído. Com um potente coice na carroça, fez cair os dois bandidos e partiu à desfilada, levando a carga aos saltos pelo caminho pedregoso. Logo na primeira curva, o veículo voltou-se e despedaçou-se num estrondo de cacos e vidros. Sentindo-se solto, o cavalo aumentou o galope desapareceu de vista.

Os três infelizes quedaram-se incrédulos a assistir ao epílogo da sua aventura até que Zé, olhando para os outros dois, desatou a correr na direção contrária à tomada pelo animal.

–     Espera aí, seu manhuço! Filho de um coirão! - Xico começou a correr atrás dele. - Não fujas, vou-te dar uma saronda que te racho, cochino, labrego! Espera que já as vais larpar, seu gandulo! Não fujas!

Desanimado, Tone quedou-se a olhar a nuvem de poeira deixada pelo cavalo em fuga e para os restos despedaçados da carroça. Depois olhou para o outro lado, onde o seu irmão perseguia o patranhas, aos gritos. Baixou-se, apanhou a pistola e prendeu-a na cinta.

“Pelo menos a prata deverá valer alguma coisa, porque como arma, é uma desgraça.” – Pensou enquanto se metia ao caminho, atrás dos outros dois. – “Talvez consigamos chegar a casa ainda antes da meia noite… mas desta vez não põem os dentes no presunto da taberna do Julião.”

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