Traição


Imagem: Anonymous Drinker - David Goehring - Flickr

** Conto incluído no livro "Terras de Xisto e Outras Histórias" publicado pela Createspace e distribuído pela Amazon

Entrou cambaleante na casa de banho da discoteca e o cheiro intenso a urina e vómito atingiu-o com força. Apoiou-se na laje molhada, semeada de bocados de papel que servia de lavatório e enfrentou aquele rosto sério que o olhava todos os dias. O cabelo raiado de fios brancos estava molhado de chuva e de transpiração. Olheiras negras acentuavam-lhe a vista cansada. As pernas tremiam-lhe, estava e sentia-se um trapo. Além de ligeiramente bêbado… ou completamente. Já há muito tempo não bebia assim e a capacidade para dominar os efeitos da bebida há muito que vinha a reduzir. Fez um trejeito de desprezo para ele próprio. enquanto a cabeça oscilava ligeiramente num desequilíbrio mais ou menos controlado. - Na mesma noite desrespeitaste três das tuas regras essenciais. – A voz rouca e entaramelada sentenciou para o espelho, enquanto erguia uma das mãos e contava pelos dedos. – Bebeste de mais, fizeste sexo com uma desconhecida e essa desconhecida tinha idade para ser tua filha. Estás a ficar velho, a perder qualidades e o respeito pela tua própria forma de vida! Inclinou-se e passou água no rosto por várias vezes. Limpou-se e atirou com os papéis para o lavatório. Endireitou-se mirando-se numa caricatura de pose altiva, sentenciando para si próprio; “Quem te viu e quem te vê!” Trôpego, abandonou a divisão apalpando as chaves do carro no bolso do casaco molhado e dirigiu-se para a saída do edifício. À porta foi abordado por uma jovem magra, molhada como ele, que tremia de frio e excitação com os braços envolvidos no corpo numa tentativa de se aquecer. O cabelo que de tão loiro era quase branco, escorria sobre a cabeça e pingava copiosamente sobre os ombros. Os olhos de um azul celeste olhavam-no com receio e admiração, enquanto se lamentava: - Fechaste o carro enquanto fui à casa de banho e molhei-me toda quando regressei e dei com o nariz na porta. Ele olhou-a como se fosse a primeira vez que a via, passou a mão pelo rosto e esfregou os olhos com força. – Estás bem? - Ela insistiu, tentando espreitar por entre os dedos dele e soltando um risinho acriançado. – Bebeste um bocadinho de mais não foi? Simão, oscilante, olhou-a e devolveu-lhe um sorriso triste e cansado: - É, miúda, bebi um bocadinho de mais. Foi isso. Agora vou-me embora. - Há pouco não me chamavas miúda! – Provocou a jovem em tom irritado. - Tens razão, há pouco não. Só que, nesse momento, eu era um bocado mais cretino do que sou agora. Desculpa-me! – Passou-lhe a mão pelo rosto numa carícia antes de se afastar, em passos largos, para a saída. Desconcertada, deixou-se ficar uns segundos a olhá-lo saindo em passos inseguros. - Já tens o que querias não é, filho da p...? – Explodiu ao mesmo tempo que as lágrimas irrompiam dos olhos claros. – Também não vales nada, não passas de um velho caquético e baboso. Nem conseguiste dar a segunda! Correu para a casa de banho, furiosa, soltando uivos de indignação e deixando boquiabertos aqueles com quem se cruzou. Ele não escutou, ou ignorou-a e saiu para a chuva forte não se preocupando sequer em acelerar o passo. As gotas que lhe castigavam o rosto eram bem-vindas e já nem sentia a roupa encharcada. Abriu a porta do BMW, cinzento metalizado, já com alguns anos e atirou-se para o assento do condutor. Pousou a cabeça no volante tentando recompor-se. Tinha saído com alguns colegas de trabalho para jantar e festejar o aniversário de um deles, no fim, ele e outros três, decidiram terminar a noite numa discoteca e assim fizeram. Com o passar das horas e o consumo de álcool, em crescendo, um a um foram-se embora restando apenas ele. Quando estava quase para desistir também, reparou na miúda loira (não deveria ter mais de 18 anos... se os tivesse) que o olhava com insistência. Não era muito bonita, mas, debaixo da intoxicação alcoólica, os seus “instintos de macho caçador” foram ativados e num instante estavam a dançar na pista... tinha noção que poderia ter exagerado um pouco nos seus movimentos, mas o que é certo é que não tardaram a estar aos beijos dentro do seu carro. O sexo foi atrapalhado e louco, como se lembrava ter sido noutras ocasiões semelhantes, há mais anos do que gostava de reconhecer. Uma vez mais provou a si próprio que, ao contrário do que se diz, o álcool não tira a ereção... pelo menos não completamente. Enfim, não foi nenhum Kama Sutra, mas para ele chegava, se ela queria mais, temos pena... talvez outro dia. Agora, porém, sentia-se um pouco mais afetado pela bebida. Meteu a chave na ignição, inclinando a cabeça por baixo do volante e viu um dos lenços de papel utilizados, no chão. Com uma expressão de repulsa pegou-lhe com a ponta dos dedos e atirou-o pela janela. Nesse preciso momento, uma mão enorme entrou pelo vidro aberto, agarrou-o pelo cabelo curto e tentou puxá-lo pela abertura. Graças ao facto do cabelo ser curto, conseguiu libertar-se e olhar, incrédulo, para um homem baixo de olhar feroz que gritava algo e tentava agarrá-lo novamente. Atrás dele, a miúda de há pouco exibia um ar de triunfo. - Mas que queres? Que é que te deu? - O assustado Simão afastava-se o mais que podia da mão sapuda que, por sorte, pertencia a um braço curto. - Vou partir-te as ventas, filho da p.... Meteste-te com a minha irmã? - Gritava o energúmeno. - Sabes que é uma menor? Cabrão! - Eu?!? Ela é que se meteu comigo. - Enquanto isso conseguiu fechar o vidro e a mão do agressor precipitou-se, rapidamente, para o exterior para não ser trilhada. Uma sequência de pontapés na porta e murros no vidro, acompanhados de insultos...foram a resposta do indivíduo. Tremendo, debaixo da agressão teimosa que o veículo recebia, conseguiu pôr o motor a trabalhar e tentou abandonar o parque, quase passando por cima do agressor. A chuva no para-brisas, a luz dos faróis e o chão molhado, aliados ao estado de embriaguez, tornavam a tarefa de conduzir quase impossível. Ao contornar a primeira fila de carros estacionados, o indivíduo, qual búfalo, saiu bufando do meio das viaturas e atirou-se sobre o capô. O aterrorizado condutor guinou algumas vezes, atirando-o ao chão e acelerou. - Mas que sorte da merda! - Simão estava agora mais consciente, afastada a embriaguez pelo pavor que sentia. – A cabra da gaja tinha que ter uma besta de um touro por irmão. No início da nova fila de carros, uma vez mais, o indivíduo surgiu à frente do veículo; agora armado com um guarda-chuva que atirou contra o para-brisas, antes de saltar para o lado, para evitar ser colhido. - Valha-me Deus! No que eu me meti. - Gemeu contemplando o para-brisas. – Minha Nossa Senhora de Fátima! Se me livro desta não quero saber mais de gaja nenhuma. Só vou ter olhos para a minha mulher. Vou ser um modelo de virtude! Já na chegada à cancela de saída do parque (que por acaso estava aberta), passou como um foguete para a estrada sem se acautelar com o trânsito e ainda a tempo de ver o vingativo indivíduo a sair do meio das viaturas estacionadas, quase a apanhá-lo outra vez. Por sorte, não havia veículos na estrada àquela hora tardia e conseguiu, com alguma dificuldade e manobras perigosas, estabilizar o automóvel para circular na faixa de rodagem certa. - Fonix! - Gemeu – O que me havia de calhar no “fim da festa”. Os olhos seguiam, constantemente, para o retrovisor com medo de divisar alguém a segui-lo. - Parecia o puto do Rocky. Cabrão! Ainda com as mãos e as pernas a tremer, a velocidade a que se afastava do local fazia-o, gradualmente , sentir-se mais seguro. Escapara de uma situação perigosa apenas com um para-brisas estalado e algumas amassadelas na chapa. Muita sorte!. - Só vou ter olhos para a minha mulher... - Reiterou – Modelo de virtude... Segurava o volante com força, reduzindo a velocidade, mas não parando nos semáforos vermelhos enquanto pensava na sua promessa. - Mas não posso começar já... amanhã é dia de estar com a doce Eduarda.

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