Mitologia

Queria prender o Tempo numa garrafa

Escondê-la algures onde não me lembrasse mais.

Perder-lhe completamente o tino,

Esquecê-la e não mais a procurar.

Queria poder segurar o Sol,

Conter a Sua luz em minhas mãos

Para a poder levar junto de ti

E mostrar-lhe como esmorece face ao teu brilho.

Queria poder transportar a Lua,

Encastra-la numa joia,

Num colar de valor incalculavel

Sabendo que sua graça

Ficaria assombrada por ti

Ao adornar o teu pescoço.

Queria ser mágico

E conjurar os Poderes,

Invocar os Anjos e os Deuses

Para poder mudar o Mundo

E ajustá-lo só para nós.

Convocaria Marte

Para fazer guerra às vozes maldosas que nos odeiam.

Vulcano,

Para fazer espadas e ripostar com ferro à inveja.

Chamaria Baco,

Para embriagar os felizes e distraídos

Mantendo-os na Santa Ignorância

Sem quererem mal a ninguem nem saberem o que os rodeia.

Invocaria Vénus,

Para que te servisse

E te tratasse com o respeito que a tua divindade merece.

Apelaria a Mercúrio,

Para que corresse a todos os cantos do mundo

Gritando o nosso Amor e ameaçando quem tentasse ver mal nele.

Imploraria a Chronos que parasse o tempo

De cada vez que estivessemos juntos

Para que cada momento durasse uma eternidade.

Lembrar-me-ia de Morpheu,

Toda a vez que o sono pesasse em meus olhos

E pudesse pousar a cabeça em teu colo aconchegante e convidativo.

Seria enfim Zeus ou Jupiter,

Quem comandaria esta hoste divina

Que velaria por nós não permitindo que nada de mal nos acontecesse.

Mas eu não posso tocar os Astros nem invocar os Deuses

E o tempo escoa-se-me por entre as mãos

Como a areia corre na ampulheta.

Mercurio não corre em meu auxilio,

Chronos não quer parar o tempo,

Marte está ocupado em outras guerras...

Só Afrodite ficou...

Encarcerada em ti num corpo de Deusa,

Olhos de diamante

E rosto de Anjo

Lembrando a este pobre mortal

Que a vida é curta e o paraíso está muito longe.

Dando um pequeno vislumbre

Da beleza da Criação de Deus

E de como o Mundo pode ser perfeito e belo.

E o tempo corre inexoravelmente

Arrastando atrás de si farrapos de vidas incompletas,

Trazendo a neve aos cabelos e a tortura aos ossos.

Tiquetaqueando segundo após segundo.

E eu fico sempre

Vendo-te a meu lado

Sorrindo como o Sol no teu rosto de Lua.

Sou como uma criança pendurada num muro intrasponivel

Assombrado pela beleza da ninfa que dança do outro lado.

 

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