Luis e Isabel
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
linhas perfeitas, adormecido entre os alvos panos rendados.
deitado no ataúde, envolto em rendas e flores, quase parecia uma
boneca de jade numa caixa.
olhos com força para reter as lágrimas que pareciam querer explodir
fruto da dor que morava em seu peito.
cego… como deixara que tudo aquilo tomasse o rumo que tomou e
desencadeasse numa trama incontrolável.
àquela mulher.
ela dizia que queria algo, ele desdobrava-se em esforços para o
conseguir. Se ela dizia que não gostava de algo, ele desfazia-se
imediatamente do que fosse… por mais que lhe custasse.
fugira do seu controlo e ela, que ele tanto amava, por quem ele se
desdobrava em agrados e atenções, achou que já chegava… e partiu
para os braços de outro homem.
poucos meses de gestação num aborto espontâneo, aquela Isabel,
doce, alegre e feliz, tornou-se mimada, fútil e sem conseguir
dedicar-se ao que quer que fosse mais do que uns escassos minutos
seguidos. Alternava entre períodos de melancolia e frenética
alegria.
nubloso, mas ao mesmo tempo vivido e doloroso.
as explicações dela para acabar o casamento…
lágrimas num pedido de desculpas desesperado, gritado e implorado.
bela ave que conservamos numa gaiola? Por mais dourada que ela seja?
dizer numa voz estrangulada pela dor “para te prender num sítio
onde não queres estar.”
gritinhos de felicidade, deu-lhe abraços e molhou-lhe o rosto com
as suas lágrimas salgadas… misturando-as com as dele:
meu amor.” ela não percebia como essas palavras eram facadas
dolorosas no coração fraco dele.
por amor, compareceu num casamento feliz onde a bela Isabel se uniu
ao hercúleo Carlos. Não conseguiu sentir raiva de nenhum deles.
ainda tão claro na sua mente.
fitou de novo o rosto dela, percebe que possui uma serenidade e uma
majestade que ele não notara antes. As pálpebras, caídas sem
esforço sobre os olhos que ele sabia azuis, eram como um reposteiro
que abriga da luz do sol mantendo todo o universo na penumbra.
afastado do seu olhar, numa penumbra eterna, num purgatório do qual
não sabia se sairia algum dia.
lhe escrevera… que não tivera coragem de lhe mostrar, como
milhares de outras coisas que não tivera coragem de dizer ou fazer;
consome o peito.
ferra a alma.
olhos.
para mim.
vida sem ti.
sem teu amor.
uma outra vida, longe dele, se essa era a vontade dela… e ela foi.
E ele deitou fora o papel manchado pelas lágrimas que continha
aquelas palavras. Como se assim encerrasse aquela página da sua vida
e fechasse a porta ao sofrimento. Não conseguiu porém evitar que
ficassem gravadas a fogo na sua memória.
pouco a pouco iam doendo menos, ou às quais ele se dando menos
importância. Com o tempo, um Luís magríssimo começou a conseguir
manter uma relação amorosa com uma colega do emprego.
assombraram o paraíso e o casamento de Isabel começou a revelar-se
problemático.
dela, infundados ou parcos em provas, causaram separações mais ou
menos prolongadas. Invariavelmente Isabel telefonava, lavada em
lágrimas, pedindo-lhe desculpas pelo que o fez passar e implorando
que a não deixe sozinha.
que estivesse a fazer para correr ao apartamento onde viveram
momentos tão felizes e do qual nunca se desfizera da chave.
seu consolo na bebida e nos comprimidos para dormir. Limitavam-se a
ficar abraçados na cama enquanto ela chorava o sofrimento que Carlos
lhe causava numa voz cada vez mais sumida. Até cair no sono.
Carlos a pedir que volte para a mulher e faça por se entender com
ela… embora no fundo do seu coração desejasse precisamente o
contrário.
familiar apartamento, de lágrimas nos olhos, hesitava se deveria ou
não deixar para sempre a chave. Invariavelmente levava-a consigo
junto ao coração onde a esperança teimava em não morrer e
renascia a cada chamada.
percebeu que não havia espaço suficiente no peito dele para ambas e
deixou-o.
lado da sala, pálido, olhar perdido no infinito. Nunca conseguira
odiar aquele gigante bem disposto, por muito que tentasse. Acabou
sempre por fazer o possível para que eles se dessem bem, a
felicidade de Isabel estava acima de tudo.
sucediam-se mais amiúde e as separações entre eles mais
prolongadas. Luís ainda passou uma ou duas noites no apartamento com
ela, sem que acontecesse nada entre eles. Ela pedia-lhe que não a
deixasse e ele ia ficando, em silêncio, ouvindo-a chorar e
prometendo que ficaria até que adormecesse. Pela manhã percebia o
olhar culpado dela que lhe pedia perdão por se servir do seu amor
não retribuído e saía vazio e sem esperança.
semana de muito trabalho, observou a foto de uma longinqua e
sorridente Isabel a vibrar no telemóvel. Sem alento, deixou que
tocasse até ser atendido pelo correio de voz. Ela insistiu mais três
vezes com o mesmo resultado. Da última vez deixou uma mensagem antes
de desligar.
silêncio, tentou dormir e ignorar, Após imensas voltas na cama, ao
fim de quase uma hora, ligou ao correio de voz para escutar a
mensagem.
assim aquecia a alma, implorava:
que sempre abusei muito de ti, mas agora chega, acabei tudo com o
Carlos. De vez. Preciso de ti meu amor, nunca deverias ter-me deixado
fazer o que eu queria, devíamos ter ficado juntos para sempre.
Volta, amor.”
devolver a chamada mas o telefone estava fora de serviço.
Apercebeu-se que havia outra mensagem; a amada voz, nitidamente
alcoolizada, sentenciava:
o carro à porta. Percebo que estejas cheio de mim e tens toda a
razão em não me perdoar. Sou uma estúpida que não soube o que
fazer da vida e só trouxe infelicidade a todos aqueles que toquei.
Achei que eras culpado da nossa infelicidade, de termos perdido o
bebé. Culpado pela tua mansa aceitação do inevitável, da tua
serenidade perante o inimaginável… Mas a verdade é que, na minha
maneira estúpida, nunca deixei de te amar. Espero que me perdoes”
o telemóvel dela e depois o de Carlos, que também não atendia.
o apartamento dela.
entrou no quarto de rompante.
do corpo adormecido de Isabel…
sair quando ele, sem levantar o rosto, gemeu: “Acabou tudo.” E
ergueu um frasco de barbitúricos vazio.

