Inácio
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
macilento, com olheiras profundas e barba por cortar.
água fria para a cara, numa vã tentativa de expulsar os vapores do álcool do
dia anterior.
tropeçou para fora da casa de banho.
olhos, através das lentes coloridas, enquanto se arrastava pela calçada, em
direção ao emprego, de que estava farto.
convencer-se a entrar no chuveiro, mesmo sabendo que se iria sentir melhor.
o maço de tabaco, pois este foi de imediato colocado em cima do balcão, pela
mulher rechonchuda, de ar maternal.
contou na mão direita.
esgar, pousou as moedas em cima do balcão enquanto grasnava:
sorte não mudou de ontem para hoje.
maço de cigarros. Recolheu as moedas, sem contar, mesmo sabendo que não eram
suficientes, enquanto perguntava:
enquanto respondia:
fazer da tua vida?
mesmo ao lado do cesto dos papeis.
— Parecia estar a correr tão bem. Tinha duplicado o dinheiro, mas, de repente,
foi como me fizessem um mau-olhado e não ganhei mais… foi-se o relógio também…
Não vou conseguir pagar a prestação da casa outra vez.
tinha saído para o trabalho… — Ele atirou-lhe com aquele olhar de criança
perdida, que lhe recordava as tropelias, que ela não conseguira castigar.
dinheiro.
costas enquanto tirava um cigarro do maço e o acendia, com as mãos trementes. —
É por causa disso que até vou comprar o tabaco a outro lado!
aqui quando não tens dinheiro que chegue. — Fez-se um silêncio pesado entre
ambos, enquanto ela retorcia a revista que tinha sobre o balcão e tentava
espreitar-lhe o rosto. — Como vais fazer então?
olhar perdido na avenida que se estendia à sua frente. — Pedi um adiantamento
no emprego, no mês passado. Não posso pedir outra vez.
fazer da tua vida? Eu não sou rica!
de repente, erguendo os braços em impotência. — Que queres que faça? A sorte
não me ajuda! Olha que já ganhei muito dinheiro às cartas…
abria a máquina registadora. — Quanto precisas para a renda da casa?
no rosto, mas quando tentou chegar à caixa, foi uma palmada decidida que lhe
estalou na mão.
outro tanto deste mês. — Sorriu divertido, fingindo-se envergonhado, enquanto
esfregava a manápula.
que te tirem a casa. — Ela pousou as notas em cima do balcão, sentindo-se
imensamente velha. — A culpa de seres como és, é principalmente minha. Sempre
tentei esconder as tuas velhacarias do teu pai, pobre coitado, que se matou a
trabalhar.
careta. — Podia ser muito trabalhador, mas as mãos não eram para fazer
carícias, mas para me moerem o lombo.
marido com ardor. — E não levaste mais, porque escondi eu muita coisa e tirei
dinheiro de casa para pagar os teus estragos. Nunca fizeste por melhorar,
tentavas corrigir uma patifaria com outra ainda maior. Agora que deixaste os
bandidos dos teus amigos, gastas o que tens e o que não tens, em cerveja,
tabaco e jogo!
moer-me o juízo! — Ele contou as notas de vinte euros e meteu-as ao bolso, com
um sorriso de satisfação.
mãos… — Por uns instantes, o aspeto maternal tornou ao rosto dela.
sempre pintada, se tem marido em casa, não precisa de se arranjar como se
andasse “à caça”. — A mulher apontou o dedo acusador ao filho. — Mas
ela e o emprego mal pago que tem, é o que vos tem valido para corrigir os teus
constantes desatinos! Se te ajudo, não é por ti, nem por ela, é para o meu
netinho, que vai passar necessidades, se vocês não tiverem dinheiro.
vou chegar atrasado ao trabalho.
gritou-lhe enquanto ele se afastava.
— Ele parou junto da passadeira. — Posso ter sorte!
levas o da renda deste mês, quando vier cá a Alice dizer-me que está pago o
atrasado, ouviste?
para. — Inácio respondeu-lhe, com uma expressão revoltada, antes de se afastar
em passos largos. — Foi-se embora na
semana passada e não voltou mais.

