Corrécio 2ª parte – A Tentadora e os Provocadores
olhos. Ela no alto da sua montada, senhoril e ele suado e com roupas
remendadas. Não havia duvidas que pertenciam a mundos diferentes:
Depois de
tantos anos afastados, – Ele tentou concluir – vossa senhoria casada com o meu
patrão, não espera que tome liberdades…
Zé. – Ela
insistiu – Sou eu, a Paula, que brincava contigo em miúda… Que desafiava a
autoridade do pai para se encontrar contigo. Houve demasiado entre nós para que
me desprezes desta forma. Sabes que não casei por minha vontade.
Não, não sei.
– Cortou olhando-a nos olhos – O que sei é que te foste e não voltaste senão
casada com esse homem… porque é rico… e eu sou pobre.
Não digas
isso, por favor. Eu não sou feliz sabes? – Os olhos verdes humedeceram-se –
Passaram-se tantas coisas desde que nos afastaram… eu era muito jovem, não
poderia desobedecer ao meu pai.
Sim,
passaram. – Concordou ele baixando os olhos e deixando transparecer a dor que
permanecia no seu coração – Passaram uns ossos partidos, o teu afastamento, o
ódio do teu pai e a desaprovação do meu… que nunca me perdoou tê-lo desonrado
para com o homem com quem estava desavindo. Casaste e depois também eu casei.
Se antes estavas apenas demasiado alta para mim, agora estás inatingível.
Vai-te, faz de conta que não nos encontramos e não nos arranjes problemas.
Um casamento
– sentenciou ela – a maior parte das vezes não passa de umas palavras
memorizadas ditas sem convicção a um representante de Deus sem vocação. O meu
não foi diferente. Henrique é um bruto egoísta e não quer saber de mim para
nada… para ele sou apenas mais uma propriedade que ganhou quando fez o
sacrifício de casar comigo.
Deixa-o. – Um
brilho de esperança reluziu nos olhos castanhos de José. – Foge comigo. Também
eu vivo uma vida que não é a minha, suspirando pelos momentos que passamos
juntos.
Meu querido.
– Havia lágrimas nos olhos dela – Passaram-se mesmo muitas coisas desde o
“nosso tempo” que já acabou. Vêm-se outros locais, conhecem-se outras
pessoas… aquilo que quero de ti é apenas que me recordes sempre com esse amor
que vejo em teus olhos… e não me julgues, seja o que for que te digam a meu
respeito.
pingalim e afastou-se sob o olhar espantado de José que se quedou vendo-a
afastar-se na direção da aldeia vizinha, como nos dois dias anteriores.
companheiros aproximava-se com nova carga:
O capataz
está de olho em ti, Zé, mexe-te.
Manel. – José
retorquiu rapidamente – Leva-me aqui o Catita e ata-mo lá na carreta que eu
tenho que ir aliviar a tripa… muito depressa.
olhou a jovem Paula a desaparecer na curva do caminho antes de fitar o
companheiro para que ele percebesse que não o enganara:
Está bem, vai
lá, mas vê se fazes “o teu trabalho” depressa e o deixas de modo que o fedor
não nos chegue ao nariz… ou nos emporcalhe.
amarrou a rédea do Catita ao seu próprio cavalo e retomou a subida sem olhar
para trás.
para o pinheiral que ladeava a face mais elevada do caminho e desapareceu de
vista.
o mato agreste, evitando os caminhos, ele foi progredindo com dificuldade até
ao topo do monte de onde podia ver a totalidade do atalho que conduzia à
aldeia. Não havia sinal de Paula… e não tivera tempo de chegar ao povoado.
até escutar vozes e aproximando-se viu, numa clareira Paula abraçada a um homem
que não conseguia perceber quem era por estar de costas.
clareira abria-se para o vazio e um penhasco de várias dezenas de metros até às
fragas do rio fazia o limite da pequena área onde os dois se encontravam.
ocultando-se na vegetação até conseguir perceber o que diziam:
… tenho já
tudo preparado. – A voz de baixo do homem ouvia-se com dificuldade – Sei onde
está o dinheiro e tenho alguma roupa numa trouxa pronta a agarrar e correr. E
tu?
Tenho alguma
roupa escondida também, assim como uma roupa de homem, uma boina e umas botas
que consegui surripiar a um dos pobres coitados que trabalha para nós. – Paula
falava com a voz tremente mas aparentemente feliz – Vestida de homem, ninguém
desconfiará… ninguém reparará em dois homens a viajar no comboio.
Quando sair
daqui vou comprar os bilhetes… – Calaram-se enquanto se beijavam ternamente.
José conseguiu vislumbrar o bigode e a barba loiros e finos. Estava
identificado o seu rival; era o Manuel de Pinho, filho dum casal de lavradores
abastados da aldeia vizinha… andava no seminário no Porto e por isso
chamavam-lhe Manel Seminarista. Belo padre que iria sair dali.
Amanhã –
recomeçou o homem – Vens ter aqui antes do nascer do sol. Deves sair já vestida
à homem, para que não chames a atenção a algum vadio que para aí ande, mas traz
a tua roupa numa trouxa. Assim, nunca pensarão procurar-te vestida de homem.
em beijos e caricias que rapidamente evoluíram. Depressa a saia dela era
erguida e ele possuía-a, em pé, encostados a um pinheiro, num coro de gemidos
abafados.
mais.
silenciosamente como chegara e passou o resto do dia acabrunhado e de dentes
cerrados falando apenas quando era estritamente necessário.
depois de cuidar do Catita, passou pela taberna antes de ir para casa jantar.
Tinha bebido o vinho todo que levara e não comera quase nada… sentia-se um
pouco tonto e a calçada, ainda quente do sol, parecia oscilante.
do ti João já estavam reunidos vários homens que falavam e riam em altas vozes.
O João Sardinheiro e o Quim da Ribeira eram dois deles, não pegavam no trabalho
com muito empenho mas eram lestos a deixa-lo, por isso já se encontravam ali há
algum tempo.
cumprimentou com um breve aceno de cabeça, deitou um olhar de soslaio ao
sorriso escarninho do Sardinheiro e entrou na taberna.
apenas umas poucas velas davam alguma luz às paredes enegrecidas por décadas do
fumo da lareira que acendiam nos dias frios. Três mesas com os respetivos
bancos corridos preenchiam o espaço em conjunto com o balcão sebento de
milhares de mãos que pousavam moedas e levantavam géneros.
fiada de pipas servia de pano de fundo aos seus sogros, ti João e ti Mariana,
para matar a sede aos trabalhadores.
tinto com um seco “boas tardes”, pagou e saiu novamente, que fazia muito calor
no interior. A sua relação com os sogros não era a melhor; o casamento não lhes
agradava porque José bebia muito, era briguento e constava que não tratava a
filha deles da melhor maneira.
direita da porta nas grandes pedras que lá existiam para o efeito.
Então Zé? – O
Quim da Ribeira estava ansioso por novidades e com a sua voz de gozo inquiria –
Estás triste? Correu-te mal o dia?
Quieto, que o
homem tá aborrecido. – Brincou o Sardinheiro por entre os sorrisos dos
companheiros e um olhar de ódio de Zé.
Não te
“emplouricaste” hoje na tua menina? – Insistiu o Quim.
Já vos avisei
para acabarem com a “ladradeira” sobre mim, “lapouços” da merda. – Zé ameaçou
engolindo o conteúdo do púcaro de barro em duas longas goladas.
“Lapouços”? –
O Sardinheiro indignou-se e deu um passo em frente enquanto os outros riam. –
“Lapouço” és tu, seu lambão, que andas aí a ver se “larpas” a Paulinha… O Dr
Henrique que te pilhe…
frase porque José, que entretanto se levantara, assestara-lhe um soco no peito
que o deixou sem fôlego.
avançar na direção do agressor, este colocou a lâmina trabalhada da sua faca ao
pé do nariz do valente:
Conheces
esta? Já ta mostrei várias vezes, vai ser hoje que “larpas” com ela no bucho?
cauteloso José começou a afastar-se sem dar as costas aos provocadores.
alguém tinha ido chamar, apareceu de rompante à porta da taberna empunhando um
varapau:
Zé! – Avisou
Não se
apoquente comigo, ti João. Vou-me embora antes que tenha que dar uma “saronda”
numa dessas alcoviteiras.
uma distância segura, virou costas e afastou-se com os tamancos a ecoar nas
paredes das casas.
casa como um furacão.
Credo em
Cruz, homem de Deus! – Exclamou Maria dos Anjos, ocupada a descascar batatas
para uma malga em cima da mesa – Assustaste-me.
responder à sua mulher, deslocou-se até outra mesa encostada no extremo da
cozinha, pegou na cabaça que sabia cheia de vinho e encaminhou-se para a porta.
percebeu logo que ele estava furioso e preparava-se para mais uma bebedeira:
Vais te pôr
já a “larpar” o vinho? Anda mas é cear, que tá pronto daqui a um “cibo”
Não quero
comer. – Rouquejou ele com a porta entreaberta, indeciso entre sair ou entrar.
Já me
disseram que a menina Paula falou contigo hoje. Que te queria? – Quis ela saber
sem olhar para ele.
um murro num braço que fez com que a malga e as batatas voassem para o chão.
espetou-a com força no tampo da mesa. Os arabescos que decoravam a lâmina
reluziram:
Já te te
avisei, mulher, para não dares ouvidos às “ladradeiras” do povo! Não te metas
comigo que ainda faço um desatino. Acabo contigo ou com essas putas que te
andam a envenenar.
quase levando-a junto e saiu batendo a porta com estrondo deixando para trás o
choro e os insultos gritados pela mulher.
Avançar para




