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A avó Rosa e o avô Roso

Os pais do meu pai eram a avó Rosa e, numa lógica muito infantil, o seu marido só podia ser o avô «Roso».

A minha avó era de Válega, Ovar. Não tenho memórias muito nítidas dela, se não que era pequena, cabelos brancos e tremia muito. Tão depressa ralhava connosco (irmãos e primos) porque corríamos dentro de casa e podíamos partir alguma coisa, como, logo de seguida, nos defendia dos ralhos dos pais por alguma patifaria que fizéssemos.

Era metódica e cuidadosa, tudo tinha um sítio para estar e não devia sair dele de ânimo leve. Ver, é com os olhos, dizia.

As visitas lá a casa eram o arroz escuro com o frango de cabidela ou a farinha de pau com pescada. O ralhar da avó com o avô porque ele fora despropositado ou adormecera na frente da televisão.

O meu pai contava histórias sobre coisas imaginativas que ela fizera para ultrapassar as dificuldades que todos viveram no período da 2ª guerra. Qual o filho que não tem orgulho nos pais?

Ciosa da imagem que transmitia, exigia respeito, “que esta vida não está para graças”. A demência tolheu-a, era eu ainda muito novo e tudo quanto existia dela se foi lentamente apagando, até se esquecer de acordar.

O avô (que não se chamava «Roso», mas José) era oriundo da Foz-do-Sousa e era o oposto da esposa; adorava contar anedotas e tudo servia de motivo para uma ou mote para uma anedota. Tinha um repertório digno de qualquer «Stand-up», com o seu quinhão de histórias picantes, que revelava com mais parcimónia.

Contava o meu pai que veio a pé da Foz-do-Sousa, com 8 anos, para trabalhar numa padaria. Mas não chegou a dureza da vida para lhe fazer perder a vontade de rir dela e a boa disposição. A minha avó trabalhou muitos anos para o padre da freguesia e por isso chamavam-lhe a Rosinha do Abade. Um dia uma senhora bateu na porta deles perguntar por ela e o meu avô respondeu com voz forte para a aterrorizada visita: “Do abade, não! É minha!”. O episódio sempre foi motivo de gargalhadas entre nós.

Na minha adolescência, ele estava sempre no café, em frente a casa da tia Bela, a ler o jornal. Mexia os lábios quando estava a ler, só aprendeu quando estava na tropa, com um companheiro que o ensinara. Eu era assíduo a ir ter com ele, cumprimentá-lo e tomar um café, que ele fazia questão de pagar. Falava de política comigo e discutia os assuntos que lera no jornal, como se eu fosse já um adulto.

Gostava de fazer patifarias; levava os pacotes de açúcar do café, que abrira com muito cuidado e enchia-os de Sais de Frutos, depois colocava-os na cesta onde estavam os outros para servir aos clientes do estabelecimento. Depois era só dar umas risadas, cada vez que um infeliz lhe calhava adoçar o café com um “pacote armadilhado”.

No verão ia para a praia logo pela manhã e, próximo dos 80 anos ainda dava “uns toques” na bola com os rapazes que lá estivessem.

Dizia alegremente que a morte teria de o apanhar distraído. Um dia atravessou a rua e caiu ao chegar ao outro lado… distraiu-se, atento aos carros.

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