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Os Pilares da Minha Infância

Aos que já partiram — e continuam, em silêncio, a segurar a minha infância.

Há pessoas que não desaparecem: mudam de lugar. Saem das salas e dos quintais, das ruas e das varandas, e passam a morar noutra parte — na memória, sim, mas sobretudo naquilo que fazemos sem pensar. Às vezes é um cheiro que abre uma porta antiga; um café acabado de fazer, a manteiga a sério numa torrada, e de repente voltamos a ter sete anos, outra vez inteiros.

Estas páginas nascem desse tipo de regresso. Não pretendem reconstituir fielmente a história de uma família, nem fixar biografias completas. São antes pequenas crónicas de reconhecimento, escritas a partir de gestos simples, de casas modestas, de lugares que resistem no mapa mesmo quando já não resistem na vida: uma varanda onde ainda apetece levantar os olhos, um caminho de terra batida até à Fonte dos Alhos, uma casa pequena onde cabia uma enchente de gente e um coração que não se enchia.

Este conjunto de memórias é dedicado apenas àqueles que já partiram. Escrevo para os que não podem ler, mas que continuam presentes de formas discretas: no jornal comprado todos os dias, no pão trazido para casa, no cuidado silencioso que nunca pediu aplauso. Alguns destes pilares eram austeros e firmes, outros dados à brincadeira e à travessura; todos, à sua maneira, ensinaram-me que a infância se constrói com repetição, com rotinas, com afetos que não precisam de ser nomeados para existir.

Se estas crónicas tiverem uma intenção, é apenas esta: não deixar que o esquecimento seja a última palavra. Escrever como quem acende uma luz sem cerimónia — não para chamar de volta quem partiu, mas para reconhecer que, enquanto houver memória, há presença. E que alguns continuam a sustentar-nos, mesmo depois de já não estarem.

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