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Terras de Xisto – 2ª Parte – Decisões difíceis

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

A Maria e o Zé, como a maior parte dos habitantes de Santiago do Monte, dependiam dos Samões pela casa e pelo trabalho porque, sendo este último o dono de praticamente todas as terras em redor, era o maior empregador da região. No entanto, a relação dela com o fidalgo era um pouco mais complexa do que pareceria à primeira vista; a sua mãe trabalhara muitos anos como criada da casa e dizia-se à “boca pequena” que a jovem Maria era filha dele, viúvo há alguns anos. A suspeita nunca foi desmentida, mas também nunca confirmada. A morte de Emília, a mãe, deu ao patrão a oportunidade de tirar a inconveniente criança da casa senhorial e entregá-la aos tios, que eram os feitores da propriedade em volta da casa.

Os problemas com ela não acabaram aí. À medida que crescia, tornava-se bonita e voluptuosa; herdara da mãe as formas e finura de rosto, atraindo a atenção de aldeãos, criados e… do filho único do fidalgo.

Alguns anos se passaram com o senhor a tentar casar Maria com este ou aquele empregado, um ou outro aldeão, que acabavam por ser subterfugiamente afugentados por Luís Samões que, ignorante ou indiferente às suspeitas de fraternidade, não arredava mão de tentar possuir a bela jovem.

Até que um dia, numa madrugada de setembro, num grupo de romeiros para ajudar à vindima, vinha um jovem alto e forte, de cabelos claros, compridos e rebeldes, bem ao jeito do seu dono. Chegara à aldeia José de Sousa, conhecido pelo Zé Sobreiro, apelidado assim devido ao respeitável cajado de que nunca se apartava.

O amor entre ambos foi quase imediato e, terminada a campanha, ele já não se quis apartar de Maria e acabou por ficar a trabalhar, inevitavelmente, para o maior empregador da região.

Esta paixão despertou carinhos e ódios nuns e outros, mas para o Senhor Samões, era a sorte grande que lhe calhara; casou os dois e ofereceu-lhes uma casa na aldeia. Tirava de uma vez a inconveniente de sua casa e afastava o filho para outras mulheres… pensava ele.

Luís nunca aceitou ser preterido por qualquer homem e muito menos por um camponês. Infernizou a vida dos dois e provocou, diversas vezes, duelos com os varapaus não permitindo que os seus criados interviessem. Invariavelmente perdia e acabava em casa a curar as mazelas invetivado pelo pai por andar envolvido em rixas com um vulgar camponês.

Não foram poucas a vezes que André Samões ameaçou o Zé e a Maria de expulsão da aldeia por causa dessas situações.

Nas circunstâncias atuais, ao tratar Maria pelo apelido do marido, o fidalgo fazia o último e definitivo corte de relações com a jovem, dissipando qualquer resíduo de suspeita de filiação que ainda pudesse existir.

O burburinho recomeçou entre os presentes onde os acontecimentos eram relatados em surdina aos que acabavam de chegar atraídos pelos gritos irados; apontavam-na, mas ninguém se atrevia a aproximar-se dela, mesmo depois do fidalgo se ter afastado.

A partir daquele momento ela deixara de ser a possível filha do Senhor Samões para se tornar a mulher daquele que quase matara o seu filho.

Em choque, a jovem estava gelada, imóvel no meio de uma multidão que abria um espaço em sua volta, os olhos fixos na poça de sangue e nem se apercebendo do olhar de satisfação que um dos lacaios do fidalgo lhe deitou.

A visão foi-lhe ocultada por um tronco maciço encimado por um rosto mal barbeado, decorado com um enorme bigode e um cabelo negro despenteado e raiado de fios brancos.

— Vamos embora daqui rapariga. —Pediu com a doçura possível da sua voz tonitruante.

— Tio Manel… —Maria pareceu despertar e olhou-o, de baixo para cima, suplicante — Que é do meu Zé?

— Se ainda resta um pingo de juízo naquela cabeça oca, muito longe daqui. — Continuou o homem. — Vamos embora, filha. Vamos sair deste lugar.

Como que em transe, ela deixou-se guiar por entre as pessoas que relutantemente abriam a passagem. Afastavam-se a passos curtos do ajuntamento que os olhava, uns com tristeza e outros com desprezo, porque a inveja desperta azedumes inexplicáveis no coração dos que vivem ansiando o que não lhes pertence.

Entretanto uma mulher aproximou-se de ambos e ajudou a amparar a jovem que se lhe dirigiu:

— Tia Joaquina, perdi o meu Zé, não foi? Nunca mais o vejo, pois não, minha tia? Fugiu e não volta mais.

— Hás de encontrá-lo, minha querida. — A mulher tinha os olhos marejados e não a encarou quando lhe respondeu sem parar de andar. — Deus é bom e vais encontrá-lo. Mas é importante que te vás daqui o mais rápido possível, o Senhor Samões está desvairado e Nossa Senhora nos valha se aquele bandido do Luís morrer.

— Ir embora? — Maria estacou. — Ir embora para onde? Ir-me por esse mundo afora?

— Tem de ser minha filha — tentou convencê-la o tio — não podes ficar aqui, o Luís estava muito mal quando o levaram. Não sei se passará o resto da noite sem que o leve o Diabo, — Joaquina benzeu-se rapidamente — sim, porque Deus já lhe deve ter destinado o anfitrião.

— Mas eu não posso ir! Para onde iria? E quando regressar o Zé? Não saberá de mim.

— Duvido que se abeire por Santiago tão cedo. — Sentenciou a tia. — Pelo menos se souber que tu já cá não estás. Neste momento és um perigo para ele e para ti.

— Arranjas umas roupitas, uma bucha e uma cabaça com água e vamos embora. — Recomeçou o tio. — Ainda hoje te levo no cavalo a casa dos meus compadres em Vilariço, que te acolherão o resto da noite de bom grado. Ao nascer do dia deves pôr-te ao caminho. Temos família em Soutelo, corre para lá e que te guardem mais uns dias para que possas ir mais longe. Vai para o Porto, é grande o suficiente para que não te encontrem com facilidade.

Retomaram a marcha enquanto Maria refletia nos conselhos dos tios e, quase ao chegar a casa, sentenciou firmemente numa voz suave:

— Eu não posso ir embora. Não sem o meu Zé, que há de vir por mim.

— Oh, valha-me Deus, querida filha. — Joaquina chorava já sem o esconder — Não podes ficar que vais causar desgraça ainda maior.

As pessoas começavam a regressar às suas casas e olhavam com curiosidade o trio que conferenciava em voz baixa.

— Já te disse — o tio insistiu — não fosse ele ser ágil e distribuir umas bordoadas à direita e à esquerda e os criados do Samões tinham-no matado ali mesmo, depois que o menino Luís tombou. Que Deus me perdoe, aquela pancada na cabeça parecia o barulho de um tiro. Se ficares, e o Zé te vier buscar, hão de estar por aí de emboscada para o matar e a quem estiver com ele. Vem comigo — implorou — eu levo-te!

— Não posso, não quero! — Com uma expressão carregada de decisão, olhou-os a ambos, nos olhos. — Só saio daqui com o meu Zé. Com o meu marido!

Os ruídos de passos, nas ruas novamente desertas, fizeram-nos olhar para o outro lado, onde um homem mancava para as escadas da casa defronte à de Maria; era o Quim Coxo, o lacaio mais vil do Senhor Samões. Exibia propositadamente uma pistola no cinto. Sentou-se nos degraus e com um sorriso de escarninho, anunciou alto o suficiente para ser ouvido:

— Mandaram chamar o médico, que deve estar por aí a chegar, mas diz o endireita que o patrãozinho não escapa. — Na boca rodeada pela barba era notória a falta de vários dentes. — Mas o teu chulo, se calhar, ainda viverá menos. Vou ficar por aqui à espera dele.

A jovem cerrou os punhos e preparava-se para responder quando o tio a admoestou num sussurro:

— Calma rapariga, tem calma. Já houve tragédia a mais para uma noite só. Não lhe ligues, já conheces a besta. E está visto que hoje não podemos levar-te embora…

— Eu não vou! — Maria insistiu batendo o pé.

— …, mas vamos ver se conseguimos tirar-te daqui o quanto antes — continuou ele como se não a ouvisse.

— Nós vamos para casa agora. — Disse a tia. — Esse canalha vai passar aí a noite, mas não se atreve a meter contigo porque teria de se haver com o patrão. Vai descansar um bocadinho e amanhã combinaremos o que fazer. Descansa e reza para que Deus se apiede do Luís e não o mande para o inferno… por ora.

— Sim, queridos tios, vamos todos tentar descansar um pouco. — Maria parecia mais conformada. — Amanhã verei que hei de fazer da vida… E rezarei por esse excomungado Luís Samões… Nunca tal me passaria pela cabeça.

Beijaram-se em despedida e separaram-se, eles para a sua casa e ela para o interior da dela. Deitou um olhar venenoso ao meliante sentado nas escadas defronte antes de bater ruidosamente com a porta.

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